Mudança
A mutabilidade do destino
Quem produz o bem colhe o bem; e quem produz o mal deverá ver essa causa corrigir-se no destino.
É cediço que o destino se apresenta relativizado pela possibilidade de alterações micro, ao longo da existência do espírito. E mesmo que não partamos de uma existência macro, mas, considerando tão somente uma única passagem material resta-os evidente que tudo aquilo que o espírito faz, no gozo o seu livre-arbítrio limitado, reflete na própria essência do seu destino. Isto é, se o destino demonstra ser a nuvem que paira sobre o espírito, a fim de lhe corrigir a rota, o seu desenho depende, exclusivamente, das próprias ações racionalizadas do espírito. É que, se não há entendimento, não haveria como designar responsabilidades.
Por outra via, se o espírito, dentro de sua compreensão, ainda que limitada, age, isso leva a um necessário desenrolar de efeitos. A causalidade, tal como amplamente explorada, e que se faz presente, ao longo de toda existência espiritual, desenhar-se-á, enquanto correção, nos efeitos. Ou melhor: no próprio destino. E nem estamos tratando de toda a vida espiritual.
Dentro de uma encarnação terrena, ressaltando a racionalidade que move os humanos, praticam estes condutas, ainda que limitadas ao campo do pensamento, que trazem efeitos como consequência. Pode até parecer simplista, mas não podemos nos furtar à obviedade de que quem produz o bem colhe o bem; e quem produz o mal deverá ver essa causa corrigir-se no destino.
Evidentemente, ao longo da existência espiritual, a prática de grandes condutas pode trazer efeitos diferenciados, sendo o espírito merecedor de outras benesses. Citamos o exemplo da diminuição da dor de um espírito que desencarnara, repentina e traumaticamente – por conta de compromissos passados -, justamente pelas conquistas morais que advieram de sua encarnação.
No momento derradeiro da encarnação, já nos elucida Simonetti: “É uma espécie de balanço existencial, um levantamento de débito e crédito na contabilidade divina, definindo a posição do Espírito, ao retomar à Espiritualidade, em face de suas ações boas ou más, considerando-se que poderão favorece-lo somente os valores que ‘as traças não roem nem os ladrões roubam’ , a que se referia Jesus, conquistados pelo esforço do Bem”(l).
Nessa linha, não é despropositado até mesmo afirmar que mudanças mais sensíveis podem rodear o espírito. É o caso de espíritos encarnados que vivem, na Terra, muito mais do que o inicialmente esperado – embora não exato – e até aqueles que sofrem a alteração de uma morte traumática para um desencarne tranquilo. E isso tudo deita raiz na mudança mais acentuada è para melhor – da moral do espírito. Novamente, a conclusão parte da lógica quase infantil de que quem planta o bem colhe o bem. Quando o espírito evolui, sensivelmente, agindo em prol dos demais e desenvolvendo a si mesmo, essa evolução deverá se refletir justamente no destino. Nesse acerto de condutas, considera-se não somente os atos de existências anteriores – os que podem conduzir à programação aproximada de um desencarne traumático -, mas, também, todos os atos que o espírito praticou naquela existência. Essa dinâmica do destino, que permite se redesenhar o tempo todo, nada mais é do que fruto da justiça divina (2)•
Por outra via, o espírito pode, mesmo dentro de determinados balizamentos, portar-se de forma incompatível com a moral do Criador. Lembramos do espírito que, mesmo limitado fisicamente, pode se mover, negativamente, pelo pensamento. É que a evolução não começa na atitude, mas no pensar. Aquele que se desdobra em manter a calma, enquanto blasfema, internamente, não demonstra a nítida evolução do pensamento, embora não se possa desconsiderar que o fato de pretender se controlar seja uma semente evolutiva. Vale dizer, embora não inspire a evolução do pensamento, ao menos demonstra a vontade de perquiri-Ia.
É importante ter em mente que os desvios graves de conduta podem, assim como o bem, gerar acentuadas alterações no destino de determinado espírito. Chega-se, até mesmo, num extremo, a incentivar o desencarne precoce do espírito – antes daquela referida programação aproximada -, a fim de não comprometer, ainda mais, o desenvolvimento – ou melhor, a sua falta – espiritual.
Natural que assim o seja, até mesmo em reforço as considerações que tocam à liberdade do espírito. É que o Pai, sensível que é à necessidade de assistir os Seus filhos, compromete-lhes a liberdade absoluta. Dentro desses balizamentos, permite-se que o espírito voe, com suas asas, mas não por todo o céu. É dar ao canário as asas de canário, e à gaivota as asas’ de gaivota.
Por essa razão é que não soa invasão no status libertatis do espírito a mudança de programação que faz culminar no desencarne antecipado. Embora – reiteramos – a medida seja extrema, ela pode, por vezes, fazer-se necessária. Se o Pai não desampara Seus filhos e, ao cabo, o que pretende é a evolução dos mesmos, clareia-se a possibilidade de redimensionar as suas existências, sem jamais afastar cada um de seu livre-arbítrio e da responsabilidade pelos seus atos.
A mudança que relativiza o destino, tanto não aceitando uma programação pronta e absoluta, como dividindo a existência em micro-pontos de causas e efeitos, fez gerar alterações, não apenas na vida do próprio destino, mas de um incontável número deles. Isto é, partindo da concepção de Lei de Sociedade, segundo a qual os espíritos apenas evoluem, conjuntamente, a essência de um auxiliando o desenvolvimento alheio sempre que se trate de alterações espirituais, elas envolvem laços com outros espíritos(3)• Se, por exemplo, um espírito desencarna, precocemente, ele deixará de possuir laços materiais futuros com membros da família ou amigos, naquela existência. Mais: na matéria, não colaborará com o desenvolvimento alheio e nem os próximos colaborarão com o seu crescimento(4)• E não é só. Se havia alguma programação aproximada da realização de uma missão com outros espíritos encarnados, esse intento encontrar-se-á, por ora, rompido. Assim, a mudança no destino de um espírito reflete em destinos alheios. E nem se deve dizer que isso somente ocorra em casos extremos, como no exemplo fornecido. Em outras ocasiões mais simples, quando pequenas correções se fazem presentes, reflexos se emitem para outros espíritos, podendo gerar modificações nas escalas alheias.
Evidentemente, dentro dessa compreensão, o espírito que cava o mal, fazendo com que sejam necessárias novas alterações, desde as comezinhas até as extremas, torna-se também responsável. Não que sua conduta prejudique os espíritos alheios, pois isso seria estender a sua responsabilidade pessoal. A espiritualidade dá conta de remanejar o necessário para reacertar os rumos. Mas não se pode olvidar que, no prejuízo causado pelo espírito, soma-se aquele que diz respeito à mudança da perspectiva alheia(5).
E também é natural que assim o seja. Aquele que age com desvios de conduta nunca prejudica apenas a si mesmo, mas também a outros espíritos. E, se assim o faz, é evidente que deve responsabilizar-se por suas condutas. E, embora a espiritualidade seja digna em proporcionar rearranjos necessários, isso não apaga os méritos e os deméritos pessoais.
1- SIMONETTI, Richard. Quem tem medo da morte? 6.ed. Bauru: Gráfica São João, 1988. P.29-30.
2- Ressalta-nos Herminio Miranda: “Nossos erros de hoje serão, fatalmente, as dores de amanhã: o sofrimento que hoje causamos virá, mais cedo ou mais tarde, atingir-nos no mais fundo do nosso ser. Nossas agonias espirituais hão de sempre resultar do nosso atrito com as leis de Deus, do nosso desrespeito à ordem universal divina. A lei não pune nem a dor é castigo. A lei indica o caminho a seguir e a dor redime a consciência inquieta, corrigindo a rota espiritual”. Reencarnação e imortalidade. 1.ed. Rio de Janeiro: FEB, 1975. p.247.
3 – Ver questão 768 de O Livro dos Espíritos.
4- Ideia semelhante se desenvolve no suicídio.
5- Ainda nos lembra Joanna de Ângelis: “Quando alguém se eleva, com ele se ergue toda a Humanidade. Quando cai é prejuízo na economia moral do planeta”. FRANCO, Divaldo Pereira. Leis morais da vida. 3.ed. Salvador: Alvorada, 1976. p.128.
Emerson Ademir Borges de Oliveira
Escritor frequenta o Centro Espírita Luz e Verdade – Marilia – SP.
emersonboliveira@yahoo.com.br