Segunda Guerra Mundial

ÍCARO REDIMIDO
Gilson Freire p/esp. Adamastro
Ed. Inede – 10ª edição – fevereiro 2008.

Algumas considerações sobre o livro para melhor entendimento dos leitores:

O livro Ícaro Redimido é um romance psicofrafado pelo médium Gilson Freire sendo o agente espiritual o trabalhador da Colônia Portal do Vale, Adamastor. O livro conta o resgate do Sr. Alberto Santos Dumont, considerado no Brasil o “Pai da Aviação”. Alberto suicidou-se, morreu enforcado com a própria gravata dependurado no varal do chuveiro do hotel. Foi embalsamado e por isso ficou muito tempo com a consciência presa ao corpo (seguidamente aparecem em nossos atendimentos, personalidades de passado ainda presas às múmias mesmo tendo passado mais de cinco mil anos no antigo Egito). Alberto padeceu atrozes sofrimentos com a consciência em frangalhos ligado ao corpo congelado pela mumificação, até ser recolhido às furnas das cavernas do Vale dos Suicidas.
Já perto da ovoidização, foi recolhido pelo seu mentor, após o suicida ter conseguido formular mentalmente uma pequeníssima prece de clemência à Maria de Nazaré, não porque a prece teria que ser feita, mas por desabrochar a vontade de pedir o socorro ao altíssimo.
Adamastor recebeu a incumbência juntamente com o mentor de Alberto de recolhe-lo nas furnas. No hospital espiritual foi refeito todo o corpo novamente por processos bastante complicado (desovoidização), foi usado hipnose para fazer voltar à memória astral de Alberto.
Já de posse de todas as suas faculdades psíquicas pediu trabalho e seguiu junto com Adamastor para a ala de refazimento dos recolhidos do vale, que já estavam pronto para ser atendidos no hospital da colônia.
Alberto foi servir na ala dos viciados em fumo, cigarro, onde todos estão em situação de alienação mental no vício. Estava iniciando a segunda grande guerra mundial quando chegou o apelo das cidades do Alto, à Cidade do Portal para que fosse enviado para a frente de resgate o grupo do enredo, Alberto pediu a permissão e foi junto, até para rever sua querida Paris.
Capítulo importante este do socorro espiritual aos desencarnantes da guerra. Embora já tivesse lido a respeito do assunto nos livros do Ramatís, não tinha lido algo escrito pelos socorristas do além de forma minuciosa como narra nosso irmão Adamastor que juntamente com Adelaide e Alberto se engajam no salvamento espiritual dos “mortos” na guerra.
Lembro novamente que todo o romance foi psicografado por Adamastor pelo médium Gilberto Freire e que tudo se passa lá na outra dimensão além da matéria física. Portanto não é aqui na terra física e sim na terra astral. “A morte não altera o estado consciencial do Ser, mas somente o muda de plano vibratório ocupando a consciência, o corpo subseqüente ao do corpo de carne”.

Boa leitura a todos.

Capítulo 33

Nos Bastidores da Guerra

“E ouvirás falar de guerras e rumores de guerras; não vos perturbeis, porque forçoso é que assim aconteça; mas ainda não é o fim”-  Jesus – Mateus, 24:6

Iniciamos prontamente os adestramentos necessários à assistência espiritual na guerra, tendo em vista que Alberto seria promovido a auxiliar da desencarnação, ajudando-me diretamente na tarefa de recolher os espíritos nos campos de batalhas, desde que se adaptasse ao penoso mister, que exige perfeito controle das emoções diante da visão de corpos estraçalhados e de espíritos impregnados de pavor. Nosso amigo, no entanto, subordinado à imensa boa-vontade de servir submetia-­se com entusiasmo aos treinamentos, suplantando, em pouco tempo, a completa falta de aptidão para o inusitado empreendimento.
Nossa colônia reunia grande número de companheiros dispostos à empreitada, pois habituamo-nos a atender espíritos em pânico, vivenciando intensas agonias de mortes traumáticas e portando corpos desfigurados, tomando-nos especialmente indicados para o serviço assistencial de guerra. Mentores dos Planos Superiores compareciam freqüentemente para nos instruir, reunindo-nos em imensas assembléias, durante os poucos dias em que nos preparávamos para a jornada. Traziam-nos os princípios irrevogáveis que deveriam nortear nossa atividade, afirmando-nos, peremptoriamente, em iluminadas preleções, que não se precisava mais de louvor à pátria, porém de amor ilimitado à Humanidade, sendo indispensável romper os restritos liames que ainda nos prendiam à nação terrena de origem, transformando-nos em verdadeiros filantropos. Não haveria amigos para defender e inimigos para atacar, porém companheiros em desespero para acudir, não nos convindo perder de vista que, em ­qualquer enfrentamento bélico, todos estão enganados e a ninguém com dar maior parcela de razão. Nossas armas seriam as da bondade e ­caridade cristã, e nosso eficaz escudo, o pensamento constantemente em ‘­prece, sob a intenção do Bem, insígnias sublimes que nos fariam solda ­do Cristo e recursos indispensáveis ao bom êxito da tarefa.
Qualquer vítima seria meritória de iguais cuidados, não importando sua nacionalidade, pois do lado de cá da vida não há adversários ou aliados, sequer estrangeiros ou compatriotas, porém apenas irmãos em contendas, merecedores de iguais cuidados. Seria imperioso impedir q = a indignação se nos convertesse em raiva, diante das barbáries presenciadas, pois, se nos deixássemos contaminar por estas baixas emoções, sintonizar-nos-íamos com a hostilidade, expondo-nos aos intensos choques vibracionais do ódio que domina em tais ambientes, perturbam-nos a ponto de nos incapacitar para o serviço. Competia-nos asso como irmãos de uma realidade maior da vida, compreender e aceitar o homem como um ignorante dos princípios que regem a criação, infeliz pelo próprio mal que é capaz de praticar, deixando à Lei a tarefa de julgá-lo pelos seus inconseqüentes atos.
Seríamos vergados pelo clamor de muitas dores, agastados pelos atributos de imensas rivalidades e abatidos pelo dardejar altissonante da fúria e desespero, porém que permanecêssemos atentos e fiéis ao Bem, por invisíveis entidades angelicais estariam ao nosso lado, sustentando-nos a fragilidade da alma, trazendo-nos o beneplácito do Amor Divino para suporte de nossas fadigas e consolo das desditas humanas. Enfim, altruísmo sincero deveria nortear nosso trabalho, acima de toda adversidade combatendo-nos a acídia que, peremptória, assolar-nas-ia o ânimo. Trabalharíamos sobretudo para aplacar nos corações dos homens potencial de crueldade, semeando sentimentos de paz, concórdia = fraternidade. Estes eram os lemas indispensáveis à nossa missão e ­deveríamos seguir com profundo e abnegado amor cristão.
A guerra já havia começado e assumia proporções nunca vis assustando-nos a todos diante dos relatos daqueles que a presenciava ­de perto. Era-nos penoso ver o homem terreno, qual criança rebelde ­imprevidente, atear fogo ao próprio lar, precioso bem que a Misericórdia Divina nos concede, em nome de orgulhos injustificáveis e ambições ­desmesuradas. A Direção Espiritual do planeta se apressava para socorrer, convocando todos os trabalhadores disponíveis. Portais do Vale, assim como outras colônias, desdobrava-se para atender aos apelos do Alto e todo colaborador que satisfazia às condições mínimas exigidas deveria ser aproveitado, devido à grande extensão das necessidades, pois milhares de espíritos recém-desencarnados jaziam nos campos de batalhas à espera de urgente socorro e aguardava-se ainda o desenlace da ordem de dezenas de milhões de pessoas, entre civis e militares, até o fim do conflito. Nossa missão, conforme os treinamentos recebidos, consistiria no recolhimento desses desencarnados, pois a maioria deles não podia estar entregue ao relento, assistindo à decomposição do corpo físico, por não guardarem deméritos para tais sofrimentos.
Grande curiosidade nos assaltava com respeito aos motivos de tão descomunal conflagração e, embora se aventassem causas imediatas para a sua irrupção, nossos superiores nos advertiam que sua verdadeira origem residia nos orgulhos nacionalistas, aviltados por intoleráveis interesses chauvinistas. Os sentimentos humanos, ainda inferiorizados, acumulam discórdias insopitáveis ao longo da caminhada evolutiva, desabando em enormes tormentas de ódios, gerando-se a necessidade da deflagração de tais conflitos expurgatórios. Por isso, esses grandes embates são, comumente, o resultado de hostilidades seculares, que somente podem ser resolvidas pelo caminho mais afanoso, ou seja, o enfretamento fratricida. Embora seja a solução mais difícil e dolorosa, na luta, os inimigos, ainda que a contragosto, conhecem-se, aproximam suas culturas e acabam por se fundirem na dor que ambos disseminam, terminando na compreensão e no apaziguamento de suas rivalidades. Fato que nos atesta a excelsitude da Lei divina, capaz de retirar, ainda que do Mal, realizações imorredouras para o Bem.
Além dessas causas ocultas, todo conflito humano nunca se limita à dimensão terrena, mas se estende ao outro lado da vida, envolvendo ativamente o Mundo Espiritual, tanto as Esferas Superiores quanto os domínios do Mal. Enquanto os Planos Iluminados, ainda que chorando a desgraça dos irmãos encarnados, cuidam de lhes amparar a desdita, socorrendo-lhes as necessidades, as regiões tormentosas se consorciam à maldade, tratando de auferir proventos da crueldade e da vingança nas quais se comprazem. Envolvem-se ativamente no conflito, assumindo partido nas disputas humanas, como se integrassem nações da dimensão terrena, obedecendo aos mesmos propósitos que movem o homem na carne. E, muitas das vezes, as querelas terrenas não são mais do que prolongamentos de atritos que, na verdade, iniciam-se nestas esferas. Embora não se possa eximir os encarnados de sua parcela de culpa e de suas equivocadas intenções, a participação das Trevas é decisiva em tais embates, seja excitando-os ou servindo-se deles para execução de nefandos propósitos. Porém, de qualquer forma, são os sentimentos ainda barbarizados dos homens que os afinam com os Planos Umbralinos, mantendo-se-lhes o estreito conúbio de ignóbeis escopos.
Não podemos olvidar ainda, como já consideramos que, assim como na Terra, os desencarnados se organizam em grandes comunidades, onde mantêm os costumes e os idiomas aprendidos na jornada da carne, configurando no espaço espiritual os mesmos limites políticos dos países de origem, em um nível dimensional denominado Espaço das nações. As rivalidades oriundas do Plano Carnal atravessam a barreira da morte e prosseguem nestas regiões, pois os homens, embora envergando nova roupagem, continuam portando os mesmos sentimentos que os moviam na romagem física. Somente em dimensões muito elevadas é que são suplantados esses nacionalismos, unindo-se os espíritos pelos imperativos do amor sublimado, aplacando-se todas as desavenças, e onde os óbices da comunicação falada são superados pelos intercâmbios puramente mentais. O Mundo Espiritual inferior, destarte, ainda é dominado por grandes impérios regidos por precária ética de relações, fixada na involuída moral dos tempos medievais, na qual ainda se estacionam. Comandados por poderosas entidades chamadas de Dragões, compõem exército infernais, ávidos de conquistas e práticas de atrocidades. E também deflagram guerras, disputando territórios de influências e massas humana para exploração de seus baixos interesses. Dirigentes da Terra. Imprevidentes e gananciosos, pensando agir em nome de suas própria ambições, na verdade, afinados com esses Dragões das Sombra, respondem às suas ignominiosas sugestões, excitando-se nos instinto aguerridos, fazendo da casa planetária uma arena de lutas sangrentas nos dois planos da vida.
Nossos orientadores informavam que a Segunda Grande Guerra Mundial, na verdade, era apenas uma continuação da primeira, que prosseguira sem solução na Esfera Espiritual. Grande número de espíritos desencarnados no conflito anterior, reverberava no Além dos ódios acumulados, ansiando por revide, acicatando os compatriotas terreno à vingança. Menoscabados pelo incontido orgulho ferido e distanciados da real compreensão da vida, ainda que habitantes do Plano do Espiritual, não se conformavam com a humilhante derrota. Estimulavam pretensões colonialistas nos companheiros da retaguarda a fim de satisfazerem seus propósitos de dominação e crescimento desmedido. Assim, germânicos, franceses e ingleses continuavam praticando hostilidades desde o Mundo ­do Além, demonstrando-nos que a guerra, na verdade, era motivada pelos inadequados interesses de hegemonia dos povos de ambos os lados da vida refletindo a natureza inferior e orgulhosa do homem onde quer que se encontre que se encontre. Embora se possa ainda imputar nomes responsáveis pela deflagração e condução do grande conflito, suas atuações jamais teriam sido possíveis sem a correspondemte ganância de seus dirigidos, tanto na dimensão física quanto na espiritual, em perfeita sintonia com seus nefandos propósitos. Desta maneira, dever-se-ia atribuir tamanha hecatombe à própria natureza inferior e rebelde do espírito humano e sua belicosidade, oriunda da instintividade animal que ainda o domina, no Mundo Carnal ou fora dele.
Os soviéticos, com seu descomunal império, bravateando domínios para além de suas incontidas fronteiras, eram outra ameaça que intimidava os gananciosos, na carne ou fora dela, obstaculizando-lhes as imoderadas ambições. A supremacia da raça perfeita, a imposição de uma nova ordem social ao mundo e o extermínio contumaz e cruel das populações consideradas inferiores eram apenas motivações secundárias, atrativos engodos, alvitrados pelos espíritos trevosos, sedentos de execrandas vinditas e ávidos do exercício de infrenes crueldades. O bolchevismo judaico, pretensamente consorciado às aspirações comunistas, completava o errôneo pretexto, tornando-se alvo das injustificáveis maldades que somente as inimizades do passado e a própria natureza humana podem explicar.
A situação havia se agravado sobremaneira desde o aparente fim da Primeira Grande Guerra e o Plano Espiritual inferior se agitava assustadoramente, irrompendo mórbidos e febricitantes sentimentos que somente seriam apaziguados mediante a disseminação de destruições em massa. O momento era um dos mais graves já vivenciados pela casa planetária, que ameaçava ruir sob o guante de equivocados déspotas, apregoando falaciosas promessas. Previa-se o envolvimento de cerca de trinta nações da Terra, segundo as estimativas de nossos dirigentes. Os mais pessimistas prenunciavam o fim do mundo, contudo, estávamos confiantes e esperançosos no seu apaziguamento, pois o Plano Espiritual Superior envidava imensos esforços para minorar ao máximo a grande tragédia. E, seguros de que a Lei conduz os nossos destinos, sabíamos que não seria permitido ao homem ultrapassar os limites impostos por sua própria maldade.
Encarnados e desencarnados, consorciados em interesses comuns e alimentados por inimizades seculares, deflagraram assim o conflito, motivado por disputa de supremacia entre os potentados dos dois planos. Por isso, a guerra estendeu seus embates para além dos horizontes humanos, ampliando-se a crueldade, alçada às raias do absurdo. Enquanto os encarnados, armados de todos os modos possíveis, estraçalha seus corpos em imensa loucura coletiva, hostes de espíritos barbarizados digladiavam-se também nas regiões trevosas, juntando-se-lhes horrendos enfrentamentos, utilizando armamentos semelhantes e ferindo-­se mutuamente como se ainda participassem das mesmas sensações da ­carne. A Segunda Grande Guerra tornou-se, deste modo, um despau­tério fratricida de dimensões inimagináveis pelo historiador terreno, faze-­nos ver que, tanto no nível individual quanto no coletivo, continua o homem a disputar quem é o maior, principal causa de todas as desditas, uma vez que tais errôneas intenções levam à destruição semelhante, espargindo desgraças ao seu derredor e semeando infortúnios em seu destino.
Túrbidas nuvens de vibrações negativas enovelavam-se na atmosfera e nas regiões espirituais imediatas à crosta, disseminando agruras e comprometendo todo o equilíbrio do Orbe, contaminando desde os ambientes físicos até os seus campos magnéticos e espirituais. Contudo, os serviços assistenciais se intensificavam sobremaneira, coibindo extensão do mal. Desde as Esferas Superiores que comandam a ­humanidade, providenciavam-se recursos salvacionistas, solvendo necessidades imediatas de todos os envolvidos, em ambas as dimensões, a fim de que a civilização não sofresse graves danos e o planeta pudesse ­prosseguir cumprindo sua missão no cortejo da evolução.
O trabalho urgia e nossos treinamentos não podiam se estender por muito tempo. Os menos hábeis no socorro espiritual deveriam seguir os mais experientes, fazendo do serviço ativo a real prática do aprendizado. Alberto, apesar da imensa boa vontade, ainda não demonstrava capacidade para a tarefa, porém comprometia-me a vigiar o seu desempenho, acompanhando-o de perto e interrompendo sua atuação se a julgasse inadequada a si mesmo ou aos nossos assistidos.
Em breve partíamos rumo ao Velho Mundo, embarcando e grande hospital itinerante. Alberto consumia-se em imensa curiosidade a respeito dos mecanismos de navegação da inusitada casa voadora. Pouco podia esclarecer-lhe, porém informava-lhe estarmos utilizando processo desconhecido dos homens, pois não trafegamos na mesma dimensão espacial do mundo físico e usamos propulsão de natureza eletromagnética.  Viajaríamos por lugares de grande turbulência vibratória e necessitávamos ­de proteção para atravessá-los. Como nossos corações se achassem constritos e carregados de infaustos presságios, éramos envolvidos por coral de harmônicas vozes femininas, enovelando melodias sublimes que nos enlevavam e nos resguardavam dos imensos choques fluídicos que nos atingiam.
Chegando ao continente europeu, nosso hospital se estabeleceu em região espiritual correspondente a Portugal a fim de nos afastar um pouco dos focos de conflitos situados ao Norte. A atmosfera, contudo, era angustiante, refletindo as ominosas emanações mentais dos encarnados, submetidos ao doloroso transe expiatório. Os vários grupos de tarefeiros, apoiados pelo hospital de Portais do Vale, deveriam montar acampamentos móveis nas diversas regiões onde se desenvolviam as frentes de batalha e dirigimo-nos imediatamente para a capital francesa, onde estabeleceríamos nosso posto socorrista.
Alberto pisava o solo francês depois de largos anos, emocionando-se sobremodo ao contato com o palco de suas antigas aventuras terrenas. A Torre Eiffel esboçava-se ao longe, entre brumas entristecidas, despertando-­nos nostálgicos sentimentos. Espantado diante das profundas mudanças, admirava-se dos novos modelos de automóveis e perscrutava os céus em busca dos aeroplanos modernos, tomado por imensa e incontida curiosidade, atendendo seus antigos interesses. E, como eu, ele desejava rever logo os locais que lhe marcaram as últimas experiências de vida, buscar pelos antigos amigos, porém as condições eram sobremaneira adversas e não mais correspondiam à época em que ali vivêramos e, tampouco, havia tempo para breve deleite, pois a premência do serviço nos concitava à atuação imediata.
A Igreja de Saint Philippe de Roule foi indicada para nos sediar em seu ambiente vibracional. Em complexa operação, técnicos de nossa colônia armaram uma rede de proteção vibratória em torno do espaço ocupado pelo alojamento, a fim de se resguardar o máximo possível de paz e tranqüilidade, necessárias aos desencarnados em estado de intenso trauma e que ali seriam acolhidos.
Segundo nos informavam a guerra já assumia proporções assustadoras, atingindo a península dos Balcãs, a fronteira da França, os Países Baixos, o Canal da Mancha e o Norte da África, onde se travavam sangrentos combates. E o conflito não tardaria a se estender pela Ásia até a Oceania, pois previa-se que logo os soviéticos e os japoneses se somariam aos embates. Os homens então haviam feito evoluir as armas de guerras, aumentando sobremaneira seu poderio destruidor. Os alemães estavam em vias de dominar toda a Europa, em quase um ano de guerra, e agora seus inimigos começavam a se organizar para a reconquista dos territórios perdidos. O momento de fato era penoso e grave.
Os campos de batalha espalhados por diversas regiões já contavam com grande número de desencarnados, retidos em seus restos mortais, aguardando a caridade cristã para se desvencilharem de suas tristes condições. Os trabalhadores de nosso Plano não alcançavam atender a todos e, exaustos, desdobravam-se no penoso mister, requerendo ajuda sem demora. Formadas as equipes de socorro, demandamos à região de Dunquerque, ao norte da França, envolvida em horripilante luta. Milhares de soldados ingleses e franceses estavam sendo acuados em direção à costa e cruelmente dizimados pelo poderoso exército alemão. Informavam-­nos que providências urgentes estavam sendo adotadas para que o comando germânico aplacasse a intenção de exterminar em massa os Aliados, permitindo a evacuação do que restara de suas tropas para a Grã-Bretanha, evitando que o conflito assumisse proporções inadequadas e o domínio da Alemanha se estabelecesse de forma irreversível e desastrosa no panorama geopolítico dos encarnados.
Atiramo-nos à tarefa, somando nosso pequeno esforço aos grupos que já atendiam ativamente no local. A movimentação em nosso Plano era intensa e por todos os lados víamos espíritos transportando desencarnados, a maioria em grave estado, a fim de acomodá-los onde fosse possível. À medida que nos aproximávamos da linha de frente, a vibrações reverberavam-se em nosso íntimo como ondas de choque, exigindo-nos grande controle das emoções. Turba de trânsfugas, abatido e estropiados, cruzavam por nós, em grande número, desfeitos em desespero, configurando ainda os severos traumas físicos que os levaram à desencarnação, compondo verdadeiro exército de flagelados, enquanto outros, tomados por loucuras coletivas, corriam esbaforidos sem rumo em meio a grande algazarra de espíritos inferiores. O céu brumoso. pejado de altos teores de aflições, assustava-nos sobremaneira, como prenunciando descomunal tormenta. Guardávamos a sensação de estar em frágil embarcação em mar revolto, agitado por terrível borrasca. O horizonte distante se vestia de luto, ferido por violentos relâmpago: magnéticos, refletindo o acúmulo do imenso ódio humano. O teor das vibrações morbíficas no ambiente era de tal monta que as fazia precipitarem, caindo sobre nós sob a forma de pequenas foculações ­gríseas, quais cinzas vulcânicas, desfazendo-se ao nosso contato, causar-nos, aparentemente, sensação tátil alguma. Imperceptíveis olhos dos encarnados e das entidades barbarizadas são capazes, porém ­de veicular funestos sentimentos nos espíritos que se lhes afinam e por ­se acumular perigosamente na organização perispiritual dos trabalhadores ainda incautos, envenenando-os paulatinamente e incapacitando-os o serviço.
Ao atingirmos o local dos renhidos entrechoques, o cenário se tornava ainda mais aterrador. A soturna paisagem desfeita em ruínas se locupletava com o ribombar dos canhões, os estampidos dos fuzis e a matraca das metralhadoras, compondo patética sinfonia de lágrimas, furor e pânico, acompanhada pelo coro de alaridos estridulosos dos espíritos inferiores que se compraziam com a algazarra, ovacionando a morte e a destruição. Bandos de sicários desencarnados, trajando truanescas vestimentas, brandindo armas medievais e blasonando vitupérios, lutavam ao lado dos combatentes humanos, estendendo seus ferozes embates para o outro lado da vida. Matilhas de ferozes cães adestrados, atiçados pelos guerreiros das Trevas contra os oponentes, compunham por vezes o horripilante espetáculo. Cenas pavorosas de extensões jamais vistas fixavam-se em nossas retinas espirituais de forma imorredoura. Em meio ao assombro, elevávamos permanentemente nosso pensamento em súplica ao Altíssimo para que viesse em socorro da casa planetária, transformada em báratro colossal.
Se os homens pudessem divisar esses tétricos quadros que preenchem o invisível, acompanhando-os no gládio da morte, aterrorizados evadir­se-iam apressadamente, reconhecendo, na sua extensão, o grande erro da guerra, acorrendo a abraçar os inimigos, em busca dos tesouros divinos da paz e da concórdia.
E logo o longo e agudo silvo das bombas atiradas de aviões chamava a atenção de Alberto, que, dirigindo seus olhos para o alto, via pela primeira vez os modernos aeroplanos, transmudados em aves de rapina, pondo ovos de fogo, arrancando-lhe lágrimas de estupenda comoção. Ali estavam suas máquinas diletas, seus inocentes e frágeis aparelhos de deleite, convertidos em águias de aço, feitas para derruir e assassinar. Atônito diante do espetáculo, precisei deslocá-lo a fim de demovê-lo da perplexidade em que se estacava.
Com o coração em pranto, atiramo-nos ao trabalho, em meio à bátega de projéteis e explosões, a fim de cumprir nossa missão. Assustado, Alberto seguia-me de perto, enquanto Adelaide permanecia no alojamento de Saint Philippe, cuidando dos desencarnados que não paravam de chegar.
Deixávamos que o fragor dos prélios se esvaísse para depois atendermos como possível aos que tombavam em combate. Muitas vezes fazíamos dormir os atormentados, a fim de recolhê-los mais tarde, providenciando o desprendimento espiritual daqueles que já guardavam condições para isso, entregando-os aos padioleiros para serem atendidos nas enfermarias. Muitos agonizavam, gementes e aflitos, poucos caíam na inconsciência, enquanto outros, vivenciando relutante desdobramento, em pleno desespero diante do próprio corpo retalhado, procuravam reunir suas partes estraçalhadas sem compreenderem o que realmente se passava. Os mais afoitos e imbuídos de imenso ódio, mesmo sem suas vestes orgânicas, prosseguiam combatendo, como se ainda continuassem vivos na carne, engalfinhados em luta corpo a corpo, sem se darem conta de que estavam no outro lado da vida e sem que tombassem diante dos sucessivos e inúteis golpes mutuamente desferidos. Por estes, nada podíamos fazer até que seus furores se aplacassem na exaustão e, cessando a emancipação transitória, caíssem na inconsciência, terminando o inusitado transe.
Por muitos dias trabalhamos intensamente em meio à tempestade de sangue, até que a fuga precipitada dos sobreviventes para a Inglaterra acalmou a situação em Dunquerque. A espetacular e bem dirigida operação de resgate contou com significativa ajuda do Plano Espiritual, minorando os imediatos efeitos de uma atroz e desproporcional devastação. Então os arredores de Paris passaram a sofrer intensos bombardeios e para lá dirigimos nossos esforços socorristas. Não tardou, porém, para que a França capitulasse diante do poderio alemão, temerosa de se ver cruelmente dizimada pelo inimigo. Assistimos com pesar aos germânicos marcharem sobre Paris, desmembrando o país, obrigados, contudo, a olvidar nossa origens e calar, a todo custo, os inadequados sentimentos nacionalista que ainda teimavam viger em nossas almas. Pesava-nos presenciar o povo constrito, acomodado na desesperança, abatido pelo orgulho ferido, porém era forçoso adaptar o coração à nova realidade em que no encontrávamos, pois como tarefeiros espirituais não nos convinha mais tomar partido nas disputas terrenas.
Sem demora os exércitos precipitaram-se, em grande azáfama, buscando novas direções, seguindo as incontidas ambições de seus protagonistas. A saga sanguinária seguia outros rumos, dizimando cidades e ignorando os valores da comiseração, como se os povos que julgavam inferiores fossem meros bandos de animais. Mediante volitação, excursionávamos pelos campos, acompanhando os movimentos dos embates, à cata do recém-desencarnados, o que nos fazia recordar a lenda das Walquíria, o mito que numa época povoou a lenda nórdica, que apregoava que mulheres, em corcéis alados, compareciam nos locais de batalha, recolhendo os guerreiros mortos, levando-os para o Walhala, a morada dos deuses, fato que atesta que o imaginário humano sempre refletiu as verdades do Invisível.
Por longo tempo trabalhamos nas frentes de combate, recolhendo desencarnados. O penoso trabalho nos exigia o desprendimento das comodidades, contudo, vibrações sublimes, advindas dos Planos Superiores, nos sustentavam a jornada, confeccionando-nos o bem-estar indispensável ao espírito. E não estávamos sós, pois, no esforço comum, fazíamos muitos amigos e, apoiando-nos uns aos outros, superávamos as dificuldades da árdua, porém necessária tarefa.
Alberto auxiliava-me como podia, com boa vontade, sempre ao meu lado, fortalecendo-se na penosa atividade. Muitas vezes o via desalentado ou assustado, porém, quando os seus olhos se cruzavam com os meus, aquietava-se e se mantinha equilibrado, revelando que se prestava ao serviço, superando sua acídia e sua completa falta de habilidade para a tarefa. Por vezes ainda o via marejando lágrimas ocultas e lançava-lhe o apoio do meu pensamento, ciente de suas fragilidades, pedindo a Deus para que ele não se combalisse diante das imensas dificuldades. Paulatinamente se adaptava ao hostil ambiente, auxiliando os necessitados com denodo, expondo-se ao entrechoque das energias aviltantes com disposição para servir, embora muitas vezes alquebrado pelas exigências do penoso mister. Distanciava-se a cada dia de seu imenso interesse pelas máquinas, sobejando a alma vazia com genuínos anseios cristãos. Adestrando-se na capacidade de amar, convertia suas forças depressivas em renovadas energias para a felicidade, refazendo o equilíbrio desfeito pelo suicídio. Convertido em verdadeiro enfermeiro de guerra, em quase nada nos fazia mais recordar o genial “Inventor” dos tempos passados. O poderoso “Senhor dos Canhões”, o magno “General das Trevas”, que fora no pretérito jazia prosternado, silenciado pelas lições de humildade que a vida lhe conferira. E a dedicação ao sofrimento alheio cuidava de lhe modelar agora a alma, matizando-a com os adornos dos sentimentos nobres, necessários à confecção da angelitude.
Por onde íamos, o panorama era o mesmo, multiplicando-se a cada dia o infortúnio, a dor e o ódio. Prantos e lamúrias imanes, reverberando nos míseros corações em apressado trânsito entre os dois mundos, feria-­nos profundamente a sensibilidade, diante de tamanhas e inúteis barbáries. Paisagens em escombros, povoadas por corpos esquartejados e almas dementadas, esboçando-se quais tétricos e esquálidos fantasmas em meio às brumas vibracionais, turvavam-nos as retinas espirituais com plangentes e dantescas imagens, arrancando-nos indescritível melancolia, exigindo-­nos imenso esforço para não nos abater o ânimo, obstaculizando em definitivo nossa capacidade de atuar em benefício da triste situação. Por vezes, diante da enormidade da tragédia humana que se nos estampava com toda sua dura realidade, nossos passos fraquejavam e, aspirando por paz, ansiávamos por evadirmo-nos rapidamente do hostil meio em que nos encontrávamos, porém, ao pensar nos inditosos espíritos, presos aos cadáveres desfeitos e nos exaustos companheiros de trabalho, convencíamo-­nos da importância de continuar na tarefa que precisava de alguém para ser cumprida.
O que mais nos constrangia no serviço de guerra era observar o tétricos quadros espirituais que se seguiam ao furor das batalhas. Quando o terrível matraquear das metralhadoras e o ribombar assustador do canhões se calavam, bramidos de dores prorrompiam o funesto silêncio que se estampava, propalados pelos espíritos em pânico. Em meio às brumas carregadas do cheiro de sangue misturado ao odor da pólvora queimada, figuras hediondas saíam das sombras, completando a triste desolação dos escombros. Eram hordas de vampiros, verdadeiros bando de hienas que, invadindo o palco de atrocidades em busca das presa fáceis, refestelavam-se em macabro banquete de sangue, saqueando com avidez os restos fluídicos dos corpos dilacerados, sem que nada pudéssemos fazer em defesa das imprevidentes, vítimas devido ao alto teor de ódio conspurcando-lhes as sacrossantas energias vitais. Passavam como um vendaval destruidor, deixando uma tropilha de esquálidos molambos agonizantes, em meio às emanações de fúria e pesar inenarráveis. Mas não era tudo, logo que a algazarra desses cérberos afoitos e ferinos se acalmava, uma segunda leva de monstros latrinários, freqüentemente isolados, transportando exóticas e hórridas zoantropias que nos faziam recordar diabólicas figuras mitológicas, percorriam, calmamente, os campos de sangue, em busca do que restara dos remanescentes cadavéricos. Enquanto churdas aves negras, assemelhando-se a enormes abutres, pousavam sobre os corpos abandonados, à procura dos eflúvios vitais das carnes em adiantado processo de decomposição, multiplicando sobremaneira as aflições das chacinas humanas, envolvendo-as em burel de extensões jamais presenciadas.
Uma agonia infinda invadia nossos corações, exigindo-nos imenso esforço para manter o pensamento conectado às Esferas Superiores, suplicando pelos beneplácitos do Bem a fim de apaziguar nossa sofrida humanidade, renitente no ódio e na revolta, fazendo jus a tal desdita pelo distanciamento da Lei divina do amor. Compreendíamos o imenso equívoco da guerra, inútil e descabida solução para as contendas humanas, servindo apenas para multiplicar suas aflições e nutrir o futuro com dissabores muito maiores do que aqueles que os levam aos embates da morte. Contudo, mesmo em meio às emanações da ira e das aflições, sentíamos que invisíveis seres angelicais nos sustentavam a jornada, amparando-nos os passos frágeis e vacilantes, única alegria que podíamos nutrir no penoso serviço.
Freqüentemente penetrávamos as ruínas, em meio a bombardeios, a fim de recolher os desencarnados, ainda presos aos escombros, quase sempre civis em desespero, infelizes e aparentemente inocentes, no meio do grave conflito. Construções seculares ruíam sob os bombardeios assassinos, de ambos os lados da guerra, que não poupavam hospitais, escolas, crianças, mulheres ou idosos, matando apenas para produzir efeitos morais, disseminando a revolta nas regiões inimigas, minguando-­lhes a confiança em suas forças, na esperança de que capitulassem ante o poderio do atacante.
De outras feitas vasculhávamos as ferragens retorci das de aeronaves abatidas, socorrendo pilotos sobressaltados, nos interlúdios da morte, sem compreenderem o que se passava ou completamente inconscientes, fortemente presos aos restos mortais carbonizados ou intensamente desfeitos em fragmentos irreconhecíveis, como único refúgio no transe doloroso. Assustados, diante do poderio armamentista do homem, rogávamos constantemente a Deus para que o sanguinário prélio encontrasse o seu fim, mas os dias se seguiam, longos e terríveis, agônicos e inditosos, amontoando dores e amarguras, acumulando ruínas e somando ódios, sem que muito pudéssemos fazer em prol do imensurável drama terreno.
Convém esclarecer certas particularidades da tarefa que desempenhávamos, a fim de que o estudioso da ciência do espírito se inteire dos fenômenos que regem a criação em seus variados planos de manifestação, ainda que no vendaval desenfreado das grandes paixões humanas. Diferentemente do óbito por enfermidades ou outros acidentes, o espírito que desencarna submetido a condição de violência, no intenso fragor da luta, desencadeia um quadro aqui denominado cacotanásia. As pungentes emoções do ódio, vivenciadas no trágico momento, o elevado índice de catecolaminas circulantes no universo orgânico, configurando as reações de pavor e fuga, o entrechoque das funestas vibrações antagônicas do ambiente e a presença dos espíritos inferiores atuantes no adverso cenário de hostilidades projetam o recém-desencarnado em um nicho fluídico diferenciado, configurando particularidades que interessam àqueles que o assistem.
Como ocorre na maioria dos desenlaces dos homens de mediana evolução moral, de modo geral eles não podem ser removidos, de imediato, de seus restos mortais, requerendo tempo variável para isso, em torno de dois a cinco dias. Espíritos profundamente apegados à matéria e inseguros nos primeiros passos no Além, podem demandar semanas até que se libertem das vestes carnais, e permanecem nos campos de batalhas em estado de completa inconsciência, até que possam ser recolhidos pelo:: obreiros da desencarnação, os obiatras.
Muitos que tombam em pleno combate, movidos por intenso ódio, comumente não se dão conta da condição em que se encontram e prosseguem como mortos-vivos, na Dimensão do Espírito, sem ressentirerem a morte física. Continuam perseguindo o inimigo e atracando-se com ele em acirrado prélio. Estes participam, na realidade, de conhecido fenômeno de desdobramento e ainda não se desvencilharam, em definitivo, de seus restos mortais. Uma vez que se lhes desvanece o ímpeto de agressão. caem em imenso torpor, sendo reconduzidos automaticamente ao corpo físico e, sem conseguir despertá-lo para a continuidade da vida e sem ­entender o que sucede, entram em desesperante pesadelo. Assim permanecem até que se lhes sobrevenha a inconsciência da morte, quando então iniciam, de fato, as etapas naturais da desencarnação. Alguns, na impossibilidade de recorrerem à defesa do sono profundo, candidatam-se à ovoidização, em decorrência da adversa condição em que se encontram, se não recebem socorro eficaz. Daí a importância do socorro espiritual em auxílio a esses infelizes. A indução do estado de inconsciência é premente necessidade para estes espíritos, resguardando-os destes graves quadros, representando as maiores dificuldades para os obiatras, pois as condições adversas de trabalho e a intensa agitação que os dom’ -­dificultam sobremodo a necessária concentração de energias hipnótica ­para o êxito do socorro.
Os aflitos que sucumbem abruptamente em meio a descomunal susto, ­como aqueles surpreendidos por uma explosão, também vivenciam idêntica condição de emancipação transitória e permanecem tentando recolhe:­ corpo esfacelado, sem compreender o que se passa, em estado de completa demência, requerendo o mesmo tipo de urgente assistência. O pavor, sobrepondo-se ao ódio, no entanto, faculta-lhes facilitado mergulho ­inconsciência da morte, demonstrando-nos que a crueldade é força coerciva de ação caótica, desalinhando-nos o mundo íntimo com muita intensidade.
Em muitas ocasiões, principalmente quando o desencarnante detém méritos que lhe facultem um desprendimento ameno, o óbito traumático requer o chamado túnel de escape, fenômeno pouco conhecido que convém descrevermos com detalhes. Trata-se de um verdadeiro canal de transição entretecido em matéria ideoplástica, que envolve o espírito em processo de desprendimento, usado para isolá-lo do ambiente dimensional terreno e projetá-lo, de imediato, na realidade espiritual. Muitos daqueles que experimentaram o fenômeno de “quase-morte”, conseguindo retornar ao corpo físico no último instante, quando ainda é possível reassumir a vida, puderam visualizá-lo, descrito como um longo e escuro tubo, quase sempre intensamente iluminado em sua abertura final, para onde são atraídos, favorecendo-se o traspasse com agradável sensação de plenitude espiritual. Comumente parentes e amigos de nosso Plano os aguardam do outro lado, projetando-os, em decorrência da diferenciada arquitetura espacial que sustém o mundo do Além, em lugar aparentemente distante de onde se encontram. Os obiatras são adestrados na confecção deste adutor de emancipação, proporcionando grande lenitivo aos traspasses excessivamente traumáticos. Vítimas presas em meio aos escombros de bombardeios, às vezes consumidas por chamas, atadas às ferragens de aeronaves ou sufocadas no interior de embarcações levadas a pique, devido aos elevados cabedais morais conquistados no exercício da bondade encontram neste recurso eficiente meio para um desenlace confortável. Infelizmente, porém, poucos eram os que guardavam condição para utilizá-lo com proveito.
Muitos combatentes, excessivamente arraigados ao ódio, ao se desvencilharem de seus restos mortais, são arrebatados para o contingente de desencarnados que servem aos exércitos umbralinos, sem que se possa impedi-los. Compõem exóticos batalhões de soldados esquálidos, estropiados e dementados, comandados por hábeis generais das Trevas, que seguem guerreando nas regiões infernais, aprazendo-se em assustar os incautos, excitar a destruição e fazer prisioneiros aqueles que se lhes afinam pelos laços da crueldade, escravizando-os para fins indignos.
E outros há que, após o traspasse, buscam seus algozes ainda encarnados, quando podem identificá-los, jungindo-se-lhes ao plano mental, em mordaz e prolongado assédio obsessivo. Transformados em verdugos, continuam, desde o Plano do Espírito, a urdidura de vinditas, perpetuando o duelo, até que o amor os transforme em amigos, na incansável esteira do destino.
Vemos, assim, de forma inquestionável, que a guerra continua no nosso mundo com idênticos requintes de barbaridades e fundamentada nos mesmos injustificáveis interesses da Terra, perpetuando a destruição, espargindo dores e prosseguindo a semeadura de infelicidades.
A guerra no Além guarda, portanto, íntima correspondência com a praticada no Plano Carnal, comumente se lhe associa aos propósitos e, inclusive, utiliza armamento muito semelhante. Os enfrentamentos são igualmente brutais a ponto de produzirem danos aos organismos em luta. Obviamente, no Mundo Espiritual a vida do inimigo não pode ser aniquilada, contudo, o psicossoma é passível de sofrer lesões à semelhança do corpo físico. Tal lesão, porém, guarda íntima relação com o grau de densidade da tessitura perispiritual. Quanto mais embrutecido é o espírito mais densa é sua matéria constitutiva, tornando-a suscetível de sofrer ­danos em sua contextura, enquanto que entidades de grande envergadura evolutiva são completamente imunes a qualquer agressão externa. Por ­isso os espíritos inferiores são capazes de se ferir como se estivessem na carne e, sofrendo traumas extensos, que ultrapassem a elevada capacidade ­regeneradora do perispírito, podem entrar em estado de colapso da consciência, encaminhando-se para os fenômenos da ovoidização. Naturalmente que não é possível a completa anulação da individualidade, tampouco a destruição do aparelho psicossomático que veste o ser em evolução; este, contudo, é passível de se retrair a patamares inferiores de  organização, acompanhando a degradação do psiquismo, segundo os imperativos que determinam a segunda morte.
Ademais, os projéteis e explosões dos artefatos humanos podem também contundir entidades inferiorizadas, excessivamente materializadas e sintonizadas com o ambiente carnal, promovendo-lhes iguais lacerações ­perispirituais. Devido a este fenômeno, o lamentável resultado das guerras, comumente, não é somente a multiplicação das mutilações e mortes ­mas também a proliferação de traumas espirituais que podem evoluir  para graves contrações da consciência, resultando em elevado número de ­ovóides nos ambientes de batalhas.
Não se surpreenda o estudioso diante desta revelação. O instinto aguerrido acompanha o ser no Além, onde as rivalidades são tão ­expressivas quanto as praticadas no palco terreno. Disputas de hegemonias, conflitos de interesses divergentes e práticas de vinganças fazem do submundo do Além um reino de atritos e rixas constantes, envolvendo todos os que se lhe subjugam ao domínio das aviltantes emoções. Aos ­vencidos, como na Terra, impõe-se o cárcere, a escravidão e a ignóbil  exploração de recursos vitais, em perpetuação de ódios que varrem  os séculos e se estendem ao plano físico, onde prosseguem disse seus dramas até se desfazerem na dor e no amor.
Os conflitos terrenos, destarte, são ainda passíveis de promoverem perturbações nas Esferas Extrafísicas. Guerras de grandes proporções podem contaminar o campo vibratório do planeta pela disseminação dos ­eflúvios do ódio e dos sofrimentos, perturbando a vida do espírito em qualquer nível em que se encontre. A intensa absorção das energias mentais degradadas acomete os espíritos incautos que se lhes sintonizam  ocasionando-lhes lesões fluídicas, caracterizando patologia própria do psicossoma com manifestações variadas. Os casos mais leves se expressam com sintomas de náuseas e mal-estar, evoluindo para o aparecimento de máculas cutâneas arroxeadas, e os mais graves caminham para um quadro onde está presente a mesma fisiopatologia do choque e dos quadros tóxico-­infecciosos da carne.
Tarefeiros inexperientes, imbuídos da intenção de servir, porém ainda necessitados de aprimoramento moral, que costumeiramente não conseguem manter postura de imparcialidade nos conflitos, podem sofrer esse contato fluido, requerendo afastamento de suas atividades e tratamentos específicos. Muitos recém-desencarnados, impossibilitados de pronta remoção para planos de refazimento e sem o isolamento vibracional de nossas enfermarias, também se contaminam com essas emanações, agravando-se-lhes a recuperação. Por isso os trabalhadores de nosso Plano, comumente os menos habilitados, como Alberto, periodicamente necessitam afastar-se do ambiente de atividades para a descontaminação fluídica, pois, de forma bastante variável absorvem-nas a ponto de lhes comprometer a saúde perispiritual. Recorrem à hidroterapia, recurso capaz de eliminar com eficiência esses eflúvios negativos, impedindo que se acumulem em níveis perigosos. Porém, é forçoso confessar que, em maior ou menor grau, todos nos deixávamos contaminar pelas vibrações reinantes, sofrendo-lhes as conseqüências e somente os espíritos muito superiores podem servir, incólumes, no hostil ambiente das batalhas humanas.
Esses altos teores de emanações psíquicas da guerra, provenientes dos entrechoques das torpes emoções humanas, aglomeram-se ainda, perigosamente, na atmosfera planetária e, ao atingirem níveis inadequados, desabam em espantosas tempestades vibracionais, imperceptíveis aos olhos humanos. Rompendo o equilíbrio espiritual do orbe, explodem em espetaculares relâmpagos de fogo, reverberando nas regiões magnéticas do Plano Espiritual como reflexo dos imensos dramas humanos, acumulados em perigosos eflúvios de ódios. Fonte de imensos sofrimentos para as entidades inferiores, são precisamente previstas pelos nossos técnicos, que nos avisam a tempo de nos recolhermos em abrigos seguros a fim de não sermos surpreendidos por elas, em meio aos espavoridos guerreiros desencarnados que prorrompem em estridentes fugas. Embora causem danos ao ambiente espiritual inferior do planeta, são recursos de reequilíbrio da Lei Divina, impedindo-se males maiores e irreversíveis.
Muitas vezes, envolvidos em demasia com o fragor das contendas e assoberbados pelas intensas atividades socorristas, podíamos sentir as vibrações dos explosivos bélicos dos homens, e os estilha movimento nos atingiam causando-nos estranhas e assustadoras sensações, se nos encontrássemos muito próximos a eles, devido à persistência, no ­perispírito, de reflexos condicionados oriundos da vida física. Os ­avisados, como Alberto, por vezes precisavam ser apoiados, sentiam desfalecer. Com o tempo, porém, adestrávamos as em ­dominando-as completamente, evadindo-nos da sintonização balbúrdia que imperava na ribalta de nossas atividades.
O terrível panorama da guerra, visto do Além, multiplicando-lhe o penoso realismo, deveria coibir no encarnado a sua prática, estimulando-­lhe a apressada busca de soluções pacíficas para suas contendas. Os recursos gastos e o dispêndio de esforços seriam suficientes para ­feliz todo o planeta, suprindo todas as suas necessidades. Mas prefere o ­homem deixar-se imolar pela aspiração de domínio e a ilusão de que o desenvolvimento de armas poderosas poderá lhe facultar a almeja paz e segurança na Terra. E, acreditando que a morte é o fim de tudo, guarda ele, fixado em renitente materialismo, a estranha ilusão de que seja possível eliminar os oponentes, simplesmente matando-os, impondo no cenário ­terreno os seus interesses, livres de toda e qualquer oposição. Triste ­engodo, jamais se liquida quem quer que seja; e do Plano do Espírito a pendenga segue seu mesmo rumo, muitas vezes agravada, aguardando ­solução real na Lei Divina. Saibam os homens que a destruição dos inimigos não é solução definitiva para suas querelas, pois a vida continua carreando suas desavenças para além da morte; por isso as guerras jamais ­resolvem desentendimentos e animosidades entre os povos. Nunca terminam com a capitulação do opositor, mas somente quando vencidos e vencedores estabelecem a fraternidade e o colaboracionismo por norma de relação.
Sem olvidarmos ainda que as crueldades praticadas na guerra, o homem sente que lhe é lícito o exercício de toda maldade, geram a necessidade, em futuras reencarnações, dos grandes desastres coletivos, quando a dor comparece a fim de propiciar a colheita dos frutos semeados, conferindo preciosas lições aos espíritos e fixando ensinamentos necessários ao equilíbrio dos povos.
Por tudo isto, estejamos absolutamente cientes de que não há vitoriosos na guerra, onde todos são derrotados e somente o amor é arma poderosa o bastante para apaziguar todas as contendas e vencer definitivamente os inimigos, transformando-os em verdadeiros irmãos.

Fim.

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