ÍCARO REDIMIDO
Gilson Freire p/esp. Adamastro
Ed. Inede – 10ª edição – fevereiro 2008.
Algumas considerações sobre o livro para melhor entendimento dos leitores:
O livro Ícaro Redimido é um romance psicofrafado pelo médium Gilson Freire sendo o agente espiritual o trabalhador da Colônia Portal do Vale, Adamastor. O livro conta o resgate do Sr. Alberto Santos Dumont, considerado no Brasil o “Pai da Aviação”. Alberto suicidou-se, morreu enforcado com a própria gravata dependurado no varal do chuveiro do hotel. Foi embalsamado e por isso ficou muito tempo com a consciência presa ao corpo (seguidamente aparecem em nossos atendimentos, personalidades de passado ainda presas às múmias mesmo tendo passado mais de cinco mil anos no antigo Egito). Alberto padeceu atrozes sofrimentos com a consciência em frangalhos ligado ao corpo congelado pela mumificação, até ser recolhido às furnas das cavernas do Vale dos Suicidas.
Já perto da ovoidização, foi recolhido pelo seu mentor, após o suicida ter conseguido formular mentalmente uma pequeníssima prece de clemência à Maria de Nazaré, não porque a prece teria que ser feita, mas por desabrochar a vontade de pedir o socorro ao altíssimo.
Adamastor recebeu a incumbência juntamente com o mentor de Alberto de recolhe-lo nas furnas. No hospital espiritual foi refeito todo o corpo novamente por processos bastante complicado (desovoidização), foi usado hipnose para fazer voltar à memória astral de Alberto.
Já de posse de todas as suas faculdades psíquicas pediu trabalho e seguiu junto com Adamastor para a ala de refazimento dos recolhidos do vale, que já estavam pronto para ser atendidos no hospital da colônia.
Alberto foi servir na ala dos viciados em fumo, cigarro, onde todos estão em situação de alienação mental no vício.
Eu resgatei este retalho para compor um pequeno arquivo dos malefícios do fumo na vida astral, já que na vida humana de carne física todos já sabem, pois a medicina atual já fez todos os testes de reconhecimento do malefício do fumo no corpo humano, já os malefícios do fumo no mundo espiritual após a morte do corpo físico, somente nos livros espíritas e espiritualista através de comunicação via mediúnica de lá prá cá, é que se consegue saber como o fumo arruína a vida espiritual causando prejuízos irreversíveis no próximo corpo, na próxima encarnação. A junção destes retalhos vamos dar aos nossos consulentes fumantes para que além das informações dadas pela mídia atual, também saibam o que ocasiona lá no futuro, quando saírem desta vida.
Nossa função como terapeutas da saúde, é justamente repassar as informações, mas a decisão é sempre do consulente, mas pelo manos fazemos a nossa parte deixando nossa consciência tranqüila e com o dever cumprido.
Façam o mesmo e distribuam aqueles que já podem ler a matéria e que obtenham consciência do malefício, para aqueles que ainda não tem ou não querem esta mudança de atitude, deixe-os por conta do tempo, pois se não for pela dor, será, com certeza pela dor.
Lembro novamente que todo o romance foi psicografado por Adamastor pelo médium Gilberto Freire e que tudo se passa lá na outra dimensão além da matéria física. Portanto não é aqui na terra física e sim na terra astral. “A morte não altera o estado consciencial do Ser, mas somente o muda de plano vibratório ocupando a consciência, o corpo subseqüente ao do corpo de carne”.
Boa leitura a todos.
Capítulo 32
Enfim, o Trabalho.
“Meu Pai trabalha até agora,e eu trabalho também.” Jesus – João, 5:17
Pg. 362
Os “Cianóides”
Suicidas pelo cigarro – Tabaco
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Alberto acomodava-se, finalmente, no máximo equilíbrio possível e suas exasperadas forças psíquicas deixavam paulatinamente seus inadequados extremos para oscilarem em busca da normalidade, encontrando a acalmia necessária ao seu bem-estar. As lições de humildade calaram-lhe fundo na alma, reverberando-se em sua consciência em forma de ensinamentos imorredouros. A bonança, enfim, bafejava suas paisagens conscienciais, aplacando-se as tempestades das imensas culpas e silenciando em definitivo suas acerbas angústias. Sem dúvida que ainda havia importantes teores remanescentes em seus tecidos perispirituais, entretanto, doravante não lhe perturbariam sobremaneira os passos na Erraticidade e somente poderiam ser completamente drenados através dos filtros de carne, em futura reencarnação. A vida exige-nos perfeição nos moldes estabelecidos pelo Criador, por isso a substância divina que nos compõe não pode subsistir retendo em suas malhas resíduos de desamor e dissonâncias de fragorosas culpas ,compelindo-nos às provas e expiações na matéria até que as virtudes se nos fixem como automatismos natos, na precípua aventura de reconstrução de nós mesmos.
Detendo definitivamente o subjugo aos embalos enfermiços da autodestrutividade ou da supercompensação do eu, nosso amigo calou o menosprezo a si mesmo, frenando as lamúrias diante dos sofrimentos e inibindo a afanosa busca de inadequada exaltações para compensação de sua apoucada personalidade.Felicitava-o agora a certeza de que suas dores se justificavam perante a precisa identificação dos graves delitos do passado e o reconhecimento de que o orgulho lhe fora na vida o grande vilão, responsável por todos os seus sofrimentos. Não reclamava agora, albergar a mensagem evangélica como norma indispensável para a conquista dos elevados patamares da evolução.
A alquimia do amor efetuara profundas transformações, não somente em seu psiquismo mas também em sua aparência externa. Seu perispírito se restituía completamente, moldando-se perfeita mistura dos traços alimentados do passado com os do presente, sanado-lhe a minguada compleição. Uma nova vestidura exterior passou a lhe enfeitar a alma de suaves contornos masculinos, harmonizando-lhe as formas, demonstrando-nos que somos potentes criadores de nós mesmos e temos por herança divina o direito à beleza, desde que a mereçamos, abdicando-nos de usufruí-la unicamente para o deleite da vaidade.
Imensamente agradecido à vida, Alberto afinal podia sorrir aliviado, contagiando-nos com sua singela alegria. Os antigos familiares e amigos continuavam ausentes, porém novos companheiros se lhe compunham o séqüito de relações, enriquecendo-o com a benesse de fraternidade sadia, estimulante de propósitos elevados. Envolvidos por sacrossantas motivações, prosseguia agora seus estudos na escola de educação espiritual que freqüentava, com renovado entusiasmo, incrementando sobremodo seu interesse nas questões pertinentes a Deus e à magnitude da criação. Preciosos livros lhe chegavam às mãos, alimentando-o como Pão Divino que sacia para sempre. Era-nos recompensador vê-lo engendrado na correta senda da regeneração, distanciando-se cada dia de suas imensas angústias. Agradecíamos a Jesus pelo êxito de nossa tarefa socorrista, sem pretender medito algum no processo, pois sabíamos estar apenas cumprindo com a operosa vontade divina, da qual somos meros agentes. Nosso objetivo fora alcançado depois de prolongado, porém profícuo labor. No entanto, faltavam-lhe ainda conquistas indispensáveis para concretizar, de fato, sua melhora, encaminhando-o para a alta assistencial. Como auxiliares do processo cirúrgico, competia-nos agora cerrar-lhe os tecidos abertos na alma, propiciando-lhe o completo refazimento.
Na terapia orientacional que empreendemos, a interposição de dois recursos é imperiosa para se efetivar a completa assistência ao enfermo, depois de atender às suas primeiras necessidades: o trabalho e a instrução. Essa última já era objeto de seu desvelado interesse, faltando-lhe o desinteresse em favor do próximo, converte-se em altruísmo. A instrução, aplicada em benefício da ignorância alheia, torna-se sabedoria. Compõem assim as duas asas da angelitude, imprescindíveis em nosso vôo rumo ao infinito. Somente mediante o franco exercício destas duas poderosas alavancas da evolução é que se finaliza a tarefa assistencial, quando o assistido se converte em assistente.
O trabalho tornava-se agora para Alberto medicamento imprescindível e era preciso, sutilmente, incentivá-lo no seu devido uso, permitindo-lhe, porém, liberdade na escolha dos próprios caminhos, obedecendo aos seus pendores íntimos. As sutis forças da vida tratariam de conduzi-lo ao campo de expressão de suas necessidades, competindo-nos apenas afinar a intuição para ouvi-las e orientá-lo, devidamente, no momento preciso.
A praxiterapia em nosso plano segue molde semelhante à empregada no mundo carnal, porém, no nível em que estamos o labor mais importante não é o desempenharmos em prol do próprio interesse, porém aquele que realizamos em benefício de outrem. A fim de efetuarmos a correta tecelagem do panorama distorcido do passado, dissolvendo concreções psíquicas doentias, o serviço deve atender aos pendores e necessidades de aprimoramentos individuais, mas não à fome de ganhos pessoais e objetivos puramente egóicos. Não deve servir à autopromoção da vaidade ou ser veículo de exibicionismo de competência, porém realização de precípuo benefício humanitário. Deve inserir-se no contexto das necessidades coletivas e para isso precisa ser especializado em funções complementaras, evitando-se os contrapodutivos entrechoques da competição. O salário mais valioso para o seu executor é a desagregação de ondas mentais enfermiças, sanando chagas retidas do pretérito e angariando forças curativas para o próprio equilíbrio. Recurso indispensável em qualquer tratamento, a laborterapia consolida ensinamentos e fixa lições, habilitando o espírito para o exercício da vida no concerto dos povos, junto aos quais caminha na evolução, pois, como determinou o Senhor, não se pode progredir isoladamente. Aquele que segue à frente deve sempre se voltar, trabalhando pelos que permanecem na retaguarda, pois não há felicidade possível para o hedonista nos Paramos Celestes.
Em nosso plano, contudo, o serviço e função social, o qual aprendemos a atender por amor ao bem comum, fazendo-nos peças indispensáveis ao organismo coletivo e habilitando-nos para a conquista de todas as qualidades necessárias ao crescimento espiritual.
Em decorrência de seus antigos pendores, Alberto frequentemente nos dirigia insistentes pedidos para conhecer nossos veículos voadores, desejoso de estudar-lhes o mecanismo de funcionamento, convencido de que algo poderia fazer para lhes impor reformas e melhorias. Ansiava de fato pelo trabalho e julgava que deveria continuar exercendo sua função no campo da mecânica arquimediana, onde detinha sua vocação, empenhando-se em servir às máquinas das quais sentia falta. Minha intuição, contudo, dizia-me fortemente que este não era o seu caminho, pois podia sentir-lhe o coração vazio das expressões do afeto, indispensáveis à vivência equilibrada do espírito. Recomendava-lhe que aguardasse pacientemente, pois o destino lhe determinaria o roteiro de atividades, o qual não tardaria a se manifestar, desde que ele estivesse preparado e disposto ao serviço. Competia-lhe por ora estudar, o que devia fazer com empenho e boa vontade.
A vida fluía vicejando oportunidades, permitindo ao nosso amigo enriquecer-se de nobilitantes valores culturais, sedimentando-lhe a sabedoria. Inúmeras vezes entretecia comigo ricas considerações, inteirando-se de conhecimentos preciosos referentes à dinâmica espiritual da vida, o que lhe despertava antigos interesses na área da Teologia. As grandes interrogações que nos premem o existir acossavam-no, excitando-o a salutares perquirições e pesquisas. E, frequentemente, encontrava-o admirado diante dos novos ensinamentos, bafejando-lhe o frio intelecto com as calorosas luzes das verdades sublimes, que nos aquecem a alma e reconfortam-nos na caminhada evolutiva. Diluía assim, paulatinamente, os antigos interesses que trazia da aventura terrena, estendendo os horizontes da mente para além das acanhadas instâncias de outrora.
Até um dia em que, mencionando-lhe estar atendendo aos “cianóides” mostrou-se muito curioso em conhecer esses enfermos, pois ouvira falar que nossa colônia os albergava em grande número. E não tardou para que, encontrando-o desocupado, convidasse-o para nos acompanhar em uma de nossas atividades corriqueiras, a fim de que pudesse se inteirar mais de perto de nossa rotina de trabalhos.
Chamamos aqui de “cianóides”, os suicidas assistidos em nossa colônia, motivados pelo vício do tabagismo. Em decorrência da forte cianose (Termo comum de uso médico que designa a coloração azulada da pele, principalmente das extremidades, decorrentes da presença de elevados teores de gases carbônicos no sangue.) que se lhes estampa na configuração perispiritual, emprestando-lhes o característico tom azulado, receberam esse denominação pelo nossos enfermeiros, frequentemente também chamados de “homens azuis”, embora nossos superiores relutassem em adotar tais alcunhas como de uso oficial, sendo de fato cognominados suicidas tabagistas.
Os fumantes inveterados da Terra desencarnam de fato como autocidas e são atendidos em nossa colônia, em enfermarias especiais, pois, frequentemente, são resgatados do Vale dos Suicidas, onde estagiam por tempo indeterminado, porém normalmente prolongado. Não há quem duvide que o estranho hábito de aspirar inadequados gases tóxicos do tabaco promova graves males ao organismo físico, impondo-lhe patologias destrutivas e minando-lhe as forças vitais. As doenças decorrentes do tabagismo são já muito bem descritas pela medicina terrena, entretanto poucos se dão conta de que tal condições é capaz de atravessar o túmulo, acarretando sérios danos à vida do espírito na Erraticidade.
Demandamos importante hospital de nossa cidade, como sempre acompanhado de Adelaide e agora de Alberto, que atendia à sua curiosidade em conhecer os estranhos “homens azuis”. Adentrando a instituição, sempre repleta de trabalhadores e enfermos, dirigimo-nos para o seu subsolo, onde, em local isolado e pouco aprazível, localiza-se a “Câmara dos cianóides”. Uma grande sala, hermeticamente fechado, permitindo reduzida renovação de ar ambiente, acomoda enorme número deles, trescalando forte e intolerável emanação a tabaco. Necessita-se munir de suficiente autocontrole, pois aqueles que não se habituaram ao estranho vício experimentam fortes náuseas em contato com o ambiente. Adelaide já se achava parcialmente adaptada e eu, como ex-fumante, não encontrava grande dificuldade no local. Alberto, contudo, mesmo advertido do incômodo, exprimia sua natural repugnância, ensaiando náuseas incoercíveis. Máscaras especiais são usadas pelos que assistem estes doentes a fim de não se contaminarem com suas nocivas exalações, porém não são capazes de completo isolamento, exigindo-se força de vontade para a permanência no local.
A necessidade de se manter indivíduos enfermos em tão inóspita atmosfera explica-se pelas exigências patológicas que seus vícios, arregimentados ao longo da vida, impõem às suas delicadas constituições psicosomáticas. Habituados à inalação constante de venenosos insumos do tabaco, encontram como único e fugaz alívio a permanência em tão insalubre salão, impregnado de eflúvios pestilentos emanados por eles mesmos, satisfazendo a doentia dependência arquivada no perispírito. Aí permanecem por tempo indeterminado, despendendo valiosas oportunidades da rica vida espiritual, agastados na vivência de aflitivas sensações, algemados às conseqüências da própria imprevidência. É lamentável e incompreensível a ignorância do homem moderno, deixar-se dominar desta forma por tão ignóbil vício, mesmo ciente dos grandes males que infringe à sua organização.
Dirigindo meu olhar par o passado, envergonhava-me, perante Deus e a própria consciência, por ter sido um deles, entregando-me a tão aviltante e atoleimado prazer. A duras penas suplantara a triste condição e sentia-me compelido a colaborar com os inditosos irmãos da retaguarda, relembrando os benefícios recebidos no passado. Adelaide, por extremada abnegação, acompanhava-me diariamente no penoso labor, dominando com boa vontade o intenso mal-estar que o contato com o repugnante lugar lhe suscitava. Alberto titubeava, porém, não declinou da intenção inicial, dispondo-se a nos seguir.
Nossa tarefa consistia em aplicar aos enfermos ali reunidos passes de evacuação miasmática, fazendo-os drenar os remanescentes vibratórios das toxinas do fumo ainda impregnadas no corpo perispiritual. Todos, desencarnados por patologias próprias do tabagismo, mal conseguem respirar e, hebetizados, não se dão conta da própria condição em que se encontram. Muitos suplicam por cigarros, em franco desespero, enquanto outros, em afligentes ataques de loucura, exigem por eles. Alguns logram, mediante automática e ingente operação ideoplástica que lhes rouba preciosas energias psíquicas, mentalizar cigarros, os quais imaginam tragar, desfrutando enganoso deleite. Todos vivenciam a idéia fixa de fumar como única solução para suas angústias, triste obsessão da qual demandam longo período para se desvencilhar, causando sérios prejuízos aos seus progressos espirituais.
Possuídos de lastimável e imensa penúria orgânica, demandam largo período de recuperação nestas enfermarias especializadas. Os delicados tecidos pulmonares perispirituais, seriamente lesados pela intoxicação nicotínica, imprimem-lhes pesadas e aflitivas angústia respiratórias, dignas de pena para quem os assiste. Alguns mal conseguem conversar, dominados pela dispnéia e quando o fazem é para suplicar por cigarros, como se fosse tudo que precisam para se acalmar. Triste condição que nos leva a meditar no imenso disparate de tão nefasto vício ao qual o homem da Terra se atira com avidez, sem dar-se conta do tamanho malefício que se está infligindo. O perispírito é sobremodo sensível às substâncias nocivas e inadequadas que usamos em demasia quando na carne, fixando-as em forma de aguilhões vibratórios, exigindo-se árduos e prolongados tratamentos para bani-los. O corpo físico, confeccionado em adequada robustez, é capaz de maior resistência a este dardejamento químico aviltante, porém com a morte, os males que nos ocasionam, agravam-se, devido à tenuidade da tessitura psicossomática, ampliando-se seus assoberbados efeitos negativos, coagindo o incauto viciado a desequilíbrios e sofrimentos ainda maiores. Após longos anos de permanência em tais enfermarias, todos ainda continuam registrando o dano nas malhas perispirituais, imprimindo-as depois no futuro corpo físico, ao reencarnarem, estabelecendo enfermidades de difícil remissão como a asma brônquica, as fibroses idiopáticas, os tumores, as pneumonias de repetição e outras patologias pulmonares crônicas.
Decididamente, em sã consciência, não se pode compreender tamanha estultice do homem em se comprazer aspirando os nocivos dejetos químicos da combustão do tabaco. Nossos dirigentes nos informam que o inadequado costume, aprendido dos indígenas americanos, somente se justifica como hábil mecanismo utilizado, em seus primórdios, pelos espíritos obsessores dos encarnados, interessados em lhes sugerirem hábitos nocivos com o firme propósito de lhes imporem prejuízos. Posteriormente, retornamos à vida física, incorporaram o mesmo mal que imputavam às suas imprevidentes vítimas, perpetuando assim o desregramento que se transformou em crônico vício social.
Embora a maioria dos tabagistas, após a morte física, encaminha-se para o Vale dos Suicidas, muitos permanecem na crosta planetária, jungidos aos encarnados, aos quais se consorciam em doentio conúbio obsessivo a fim de continuar o sórdido prazer, induzindo a sua perpetuação, compondo assim outro lamentável panorama das tristes conseqüências de tão estranho costume.
Observando a infausta condição destes enfermos, não podemos deixar de lançar um apelo àqueles que ainda residem na carne e que detêm a condição de abandonar desde já o inadequado hábito, evadindo-se a tempo dos implacáveis sofrimentos pós-morte. Não há esforço que não compense nosso bem estar no Mundo Espiritual, permitindo-nos a aquisição de importantes acervos evolutivos, habilitando-nos a vivência no máximo equilíbrio possível. Contudo, sabemos que muitos não responderão a estes nossos ditames, e somente aqui os compreenderão, pois a vida na matéria nos inunda, por vezes, da ilusão de que importa apenas o presente, e as conseqüências, de nossos atos nos porvir não nos dizem respeito. Seguramente seus padecimentos serão motivos de imensos, porém tardios arrependimentos a se refletirem em futuras reencarnações.
À medida que terminávamos os passes de drenagem, os enfermos vertiam vômica repugnante, mal cheirosa, pela boca e narinas, após acessos de tosse incoercíveis, requerendo imediata limpeza a fim de não sufocarem com as próprias secreções. Sem conseguir dar conta de atender a todos, fazíamos o que era possível. Alberto, embora constrangido e expressando aversão diante da triste condição dos enfermos, presenciava nosso ingente esforço e, timidamente, tomou nas mãos os apetrechos de limpeza e passou a nos ajudar na difícil empreitada. Profundamente sensibilizado pelos padecimentos que observava, finalmente o víamos decidido ao trabalho, pois no dia seguinte me procurou oferecendo-se para a tarefa, caso o julgássemos em condições para isso. Prontamente recorremos à direção do hospital, requerendo sua inscrição entre os trabalhadores da instituição, admirando sua íntima disposição de dedicar-se ao árduo empreendimento. Assim é que Alberto se fez auxiliar da enfermaria de ex-tabagistas, suas primeiras tarefa no Mundo Espiritual. Aceitando com boa vontade o singelo, porém difícil labor, aos poucos foi superando a repugnância que lhes suscitava, vencido pela consternação diante de tanto sofrimento. E em breve solicitou-me orientação, demonstrando interesse em estudar com mais detalhes a condição dos pacientes que assistia.
Enfim víamos que o amigo encontrava seu lugar em nossa comunidade de serviços aos semelhantes e com humildade anuía à imposição do destino, embora muito distanciado das vocações que ainda estuavam de seus antigos pendores, advindos de suas últimas experiências terrenas.
Felicitando-o pela iniciativa, dizia-lhe:
- Acreditamos sinceramente que agora você está atendendo realmente às suas mais prementes necessidades espirituais, Alberto. Sentimos, na verdade, que seu coração está saturado das máquinas e anseia pelos valores dos sentimentos, por isso lhe convém fortemente dedicar-se àqueles que precisam dos sentimentos, por isso lhe convém fortemente dedicar-se àqueles que precisam mais do que você, como roteiro seguro de crescimento espiritual. Temos urgência em desenvolver as asas do espírito, feitas de amor e sabedoria, meu amigo, e somente o empenho em tais atividades, desprendendo-nos do secular comodismo, pode nos favorecer o aprimoramento dos instrumentos espirituais indispensáveis ao vôo para o infinito. O refinamento de seu mundo emocional é no momento necessidade maior do que o desenvolvimento de aparelhos que atendam ao conforto humano, embora também estejam, indiretamente, a serviço do nosso bem-estar espiritual. Por isso ficamos felizes por vê-lo na senda que nos parece a mais acertada, compreendendo a extensão dos ensinamentos que lhe chegam.
- É verdade, devo confessar, Adamastor – respondeu, algo aliviado, por estar se engajando em nossas atividades, devolvendo à colônia os benefícios recebidos. – Apesar das imensas dificuldades, sinto uma alegria que nunca pude experimentar na vida. E já estou me habituando ao serviço e encontrando imenso conforto íntimo, não me permitindo a mínima dúvida de que este é o meu caminho e minha necessidade maior.
Adelaide congratulava-se comigo ao ver que nosso assistido finalmente iniciava passos seguros rumo à concretização de sua melhor ia e à sua transformação final em assistente.
A tarefa ensinar-lhe-ia, sobretudo, a valorizar a vida na carne e o respeito pelo precioso bem que é o corpo físico ao qual devemos nossa evolução. Os suicidas necessitam desta importante lição, prevenindo-se de futuras recaídas em posteriores reencarnações; por isso o trabalho junto aos companheiros de igual desdita, resgatados do mesmo ergástulo de dores de onde proviemos, é nosso mais sagrado recurso de recuperação e depositário da gratidão às bênçãos que a vida nos favorece.
As melhoras de Alberto se consolidavam rapidamente a cada dia enquanto nos entregávamos às tarefas socorristas nas intensas atividades de nossa colônia. Crescíamos todos, arquivando tesouros para a eternidade, entretecendo sempre diálogos proveitosos para nós, quando trocávamos observações pertinentes ao nosso trabalho. Alberto se esmerava na aquisição de conhecimentos que estabilizassem sua reforma e se empenhava no labor, com dedicação, adestrando-se no amor cristão.
Alimentando salutar entusiasmo, aos poucos se envolvia com os “homens azuis”, nutrindo-Ihes verdadeira afetividade e assistindo-os com desvelado interesse. Freqüentemente recorria ao nosso modesto conselho em busca de providências para determinados companheiros que lhe requisitavam recursos diversos, às vezes, pedidos impossíveis de serem atendidos em benefício de si mesmos. Em breve o víamos estudando com afinco o assunto que lhe motivava a atenção a fim de aprimorar-se na tarefa, executando-a acima de suas obrigações. E freqüentes vezes pudemos presenciá-lo levando a passeio um ou outro enfermo, com a devida permissão para isso, apoiando seus hesitantes passos.
Atestando seu progresso, certa feita procurou-me a fim de que o ajudasse em algumas questões suscitadas pela sua tarefa. Bastante modificado, com a mente ventilada por novos e divergentes interesses, questionou-me:
- Adamastor, sei que minha dúvida pode não ter fundamento, porém tenho aprendido em meus novos estudos que as enfermidades são todas produtos de nós mesmos, sendo criações mórbidas dos nossos pensamentos e sentimentos, inadequados à Lei de Deus. Vejo extrema lógica nisso, porém, diante dos cianóides não há como negar que eles adoeceram gravemente pela introdução de fator externo, qual seja o fumo. Como compreender o fato, diante das evidências irretorquíveis de nossos ensinamentos?
- Sua questão realmente procede, meu amigo, e nos faz ver que você tem avançado em seus estudos, esmerando-se para atender às necessidades da nova tarefa da melhor maneira possível. Jesus nos afirmou, com efeito, que não é o “que entra pela boca que adoece o homem, mas o que sai dela, pois o que sai procede do coração – Matheus 15:11”, isto é, provêm dos nossos sentimentos e pensamentos os verdadeiros agentes etiológicos de toda e qualquer enfermidade. Contudo, não podemos deixar de entender que existem duas vias para se imputar males a nós mesmos, a via interna e a externa. A interna responde pelos danos que procedem de nossas intenções equivocadas, distanciadas do amor, normalmente interpostas pelo ódio. Esta via responde pela totalidade de nossas doenças naturais. A externa é decorrente dos malefícios que introduzimos no organismo, como aqueles oriundos dos diversos vícios a que nos permitimos, inoculando desequilíbrios no nosso delicado mundo fisiológico. Esta via causa mazelas espúrias, verdadeiros acidentes biológicos ou doenças artificiais. Na famosa assertiva evangélica, Jesus se referia ao adoecimento natural, pois o que ingerimos pode nos intoxicar e danificar o corpo físico e perispiritual, mas é incapaz de nos adoecer a alma. O que procede do espírito, em forma de pensamentos, sentimentos e atos inadequados é que nos fere de dentro para fora, representando nossas verdadeiras enfermidades. Portanto poderíamos completar o ensinamento evangélico, considerando que o que sai da boca nos adoece e o que entra, desde que impróprio a nossa natureza biológica, acidenta-nos o organismo, perturbando-lhe o funcionamento.
Muitos fatores externos que nos prejudicam o equilíbrio orgânico são oriundos de agentes planetários, ditos naturais, como as irradiações nocivas a que estamos sujeitos, ou mesmo aqueles produzidos pela ignorância do homem, embora veiculados pelas suas boas intenções, como por exemplo os pesticidas agrícolas e as substâncias tóxicas do quimismo moderno. Outros são produtos que sabidamente nos danificam, mas nos permitimos usar por equivocado deleite ou intenção de fuga da realidade, como o são o álcool, o fumo e outras drogas. Estes, na verdade, refletindo o desleixo pelo nosso bem maior que é o corpo físico, interagem com as intenções doentias de nossa vontade e incorporam-se em nossa intimidade perispiritual, transformando-se em patologias de caráter misto. Assim tudo se explica dentro da Lei de Deus, pois se os prejuízos que imputamos aos outros se revertem contra nós mesmos, os danos que infligimos à própria organização biológica, comprometendo o seu delicado e preciso metabolismo, se incorporam também na lei cármica, refletindo-nos como perturbações orgânicas e dores. Não poderia ser de outro modo, pois do contrário não aprenderíamos a valorizar o divino santuário físico, indispensável à aquisição dos bens imorredouros da perfeição. Assim, continuamos colhendo o que semeamos no campo de experiências da vida.
Alberto deu-se por satisfeito, prosseguindo feliz nas atividades que o enriqueciam de preciosos recursos para a plena recuperação. Finalmente ele compreendia que a felicidade não consiste meramente na conquista de glórias efêmeras ou na construção de patamares onde projetar a própria personalidade, porém nas atividades mais simples da vida, desde que as realizemos embasados por verdadeiro amor ao semelhante. Aí estabeleceu nosso Criador os reais fundamentos da beatitude e a única possibilidade de engrandecimento do espírito para a Vida Maior.
Vendo-o perfeitamente integrado à tarefa de enfermeiro, perguntava-me o que pensariam os encarnados se soubessem que o herói do passado, feito símbolo glorioso de uma nação, convertera-se em modesto auxiliar de enfermagem, prestando serviços humílimos de higiene. Certamente negar-me-iam qualquer crédito à informação, julgando-a absurda e inverídica, pois a veriam completamente inadequada a um homem de gênio, a quem imputariam tarefas da maior importância e posição de destaque no mundo do Além. Pois saibam, definitivamente, que as vias do espírito não se fazem pelos refulgentes caminhos humanos e as portas do progresso se fecham àquele que se veste de fatuidades com a intenção de adentrar os elevados patamares da vida. A evolução caminha para a santidade e a verdadeira genialidade somente se conquista com a perfeita comunhão com o Pensamento Divino, exigindo do aprendiz de sabedoria o domínio da ciência do amor. Os atributos que nos glorificam não são os do intelectualismo, dado á produção de comodidades ou erudição, mas os da bondade, conquistados com a prática do altruísmo, pois somente os sentimentos moralmente elevados podem nos confeccionar alegrias perenes e proporcionar inexaurível potência de ascensão para a alma.
Compreendam ainda que a morte muda a perspectiva com a qual enxergamos a vida e, ansiando pela paz verdadeira, abdicamo-nos facilmente dos transientes títulos que a Terra nos confere, pois nada é capaz de suprimir em nós o anelo pela ventura espiritual. No serviço desinteressado ao semelhante, Alberto encontrara o caminho para suplantar suas carências e conquistar o pretendido bem-estar íntimo. E o seguia com enorme alegria. Eis a realidade.
O tempo escoava, proporcionando-nos valedouro roteiro de ganhos espirituais, quando fato surpreendente interrompia nossa rotina de trabalhos. A velha Europa, na crosta, iniciava grave conflito armado entre suas nações, prevendo-se a desencarnação em massa de grande número de pessoas por espaço de alguns anos. O Plano Espiritual se preparava para o devido socorro aos inditosos guerreiros, requisitando trabalhadores em todas as instâncias possíveis. Não sabíamos ainda que a contenda se tornaria o mais desastroso embate a que o mundo já assistira, a Segunda Grande Guerra, mas todos podíamos pressentir as mefíticas vibrações que infectavam a atmosfera planetária, eivando-a de funestos presságios.
Nossos alto-falantes proferiam melancólicos apelos, convocando os homens de bem para o trabalho socorrista em auxílio à nossa desvalida casa planetária e aos infelizes irmãos de jornada. Como guardava ainda profundos liames com o velho continente, onde se demoravam corações queridos do passado, apressei-me a responder ao chamado. Mantivera também extensa participação na medicina de guerra no pretérito e devia atender à minha consciência ainda necessitada de ressarcimento de passado culposo. Suspendia assim meus trabalhos em Portais do Vale e me preparava para a partida imediatamente. Devia despedir-me, com pesar, dos queridos amigos, especialmente de Adelaide e Alberto, com quem ainda compartilhava o lar. Afeiçoara-me a ambos de modo significativo, lamentando sobremodo deixá-los, porém a gravidade do momento me convocava a urgente atividade. A amiga de todas as horas, sem titubear, manifestou o ardente desejo de acompanhar-me e, satisfazendo todas as condições mínimas exigidas para a tarefa, imediatamente se integrou à equipe que se formava.
Alberto, recebendo a notícia, mostrou-se pesaroso, pois se nos afeiçoara como verdadeiro irmão e nos tinha como únicos amigos com quem compartilhar sua vida íntima. Por alguns dias andou sorumbático e taciturno, apesar de nossa promessa de breve retorno e de que seria encaminhado para compartilhar a moradia com outros companheiros em quem poderia igualmente confiar. Porém, dentro em pouco, fui surpreendido pelo seu insistente pedido, desejando ardentemente nos seguir na empreitada, ainda que preocupado em encontrar outro serviçal para substituí-lo na Câmara dos Cianóides. Argumentava veementemente que, por conhecer muito bem o francês e se servir com certa facilidade do inglês, poderia contribuir como intérprete nas enfermarias de socorro, além de ajudar nos cuidados básicos aos recém-desencarnados. Acorremos então a solicitar a anuência de nossos dirigentes, pois Alberto, embora já engajado no serviço, até então se encontrava sob cuidados e não albergava ainda o título de assistente.
Para a nossa alegria, o seu pedido fora prontamente aceito, fazendo-nos recordar que realmente sua participação mais expressiva neste empreendimento lhe era bastante conveniente em decorrência de seu comprometimento com as guerras no passado, sendo-lhe importante oportunidade para o refazimento da consciência denegrida.
Enfim, a Misericórdia divina o convocava ao ressarcimento do pretérito, ainda no Plano do Espírito, com o concurso do trabalho e da renúncia, convencendo-nos de que, no educandário da vida, a Lei sabe dispensar o sufrágio da dor e prescindir do guante da coerção, para a redenção do espírito que desperta para a prática do bem verdadeiro e se entrega confiante, às diretrizes do Evangelho.
FIM