Evangelho Segundo Espiritismo
DAI DE GRAÇA O QUE DE GRAÇA RECEBESTES
Mediunidade Gratuita
7. Os médiuns de hoje em dia – uma vez que os Apóstolos do Cristo também tinham mediunidade –, como os discípulos de Jesus, receberam de Deus um dom gratuito. É o de serem intérpretes dos Espíritos, a fim de instruírem os homens, para demonstrar-lhes o caminho do bem e levá-los à consolação da fé. Não foi, para esses médiuns, concedido o dom para que vendam a palavra que não lhes pertence. As mensagens que os médiuns intermedeiam não se originam nem de suas pesquisas, nem de seu trabalho pessoal.
Deus quer que a luz seja para todos.
O Pai não quer que o mais pobre seja deserdado de sua luz e possa dizer: “Eu não tenho fé, porque não tive dinheiro para compra-la.
Eu não tive a consolação de receber o encorajamento e as demonstrações de afeto daqueles por quem choro, porque eu sou pobre”.
Eis porque a mediunidade não é privilégio de alguns e se encontra entre todos os homens. Cobrar pelo exercício da mediunidade seria, portanto, desviá-la de seus fins providenciais.
8. Quem conhece as condições em que os bons Espíritos se comunicam, sabe a aversão que eles sentem por todo e qualquer interesse egoístico. Sabe, também, que pouca coisa é suficiente para que eles se afastem. E, tudo isso sabendo, não poderá jamais admitir que os Espíritos Superiores estejam à disposição da primeira pessoa que apareça e os convoque às comunicações com uma tabela de preços na mão.
O simples bom senso rejeita essa idéia.
Não seria, também, um desrespeito querermos chamar para comunicações, a um preço determinado, os seres que respeitamos e que são amados pelos nossos corações? Não há dúvida de que, assim, poderemos obter as manifestações dos Espíritos, mas quem, nos poderia garantir a autenticidade do comunicante? Os Espíritos levianos, mentirosos, brincalhões e toda a multidão de Espíritos infelizes, e que são de pouco escrúpulo, atendem sempre. Estes é que estão sempre prontos a responder a tudo o que lhes perguntarem, sem se preocuparem com a verdade.
Aquele, portanto, que deseja comunicações espirituais sérias, deve primeiramente procurá-las com seriedade. Deverá instruir-se sobre a natureza das ligações do médium com os seres do mundo espiritual, uma vez que a primeira condição para se conseguir o afeto dos bons Espíritos é a humildade, o devotamento, a abnegação e o mais completo desinteresse moral e material do médium.
9. Ao lado da questão moral, apresenta-se uma outra consideração não menos importante. E a que se refere à própria natureza da faculdade mediúnica. A mediunidade séria não pode ser e nem jamais será uma profissão. Profissionalizá-la seria desacreditá-la moralmente e levá-la a confundir os médiuns com os que leem a sorte. Mas, existe, contra isso, ainda uma outra dificuldade material. É que a mediunidade é uma faculdade essencialmente instável, fugidia, variável, com a qual ninguém pode contar na certa.
A mediunidade será, portanto, para quem pretenda explorá-la profissionalmente, um campo feito de incertezas, que lhe poderá faltar no momento em que lhe seria o mais necessário. Ela é bem diferente dos talentos adquiridos pelo estudo e pelo trabalho e que, pela sua própria origem, é um patrimônio do qual é lícito tirar-se proveito pessoal. Mas a mediunidade, em si, não é uma arte, nem um talento do médium e, por isso, não pode tornar-se uma profissão.
Ela não existe sem a participação dos Espíritos. Se os Espíritos se fizerem ausentes, não há mais fenômeno mediúnico. Poderá, então, a aptidão mediúnica continuar existindo, mas o seu exercício estará anulado.
Não há um único médium no mundo que possa garantir a obtenção de um fenômeno mediúnico no momento em que ele quiser. Explorar a mediunidade é, por consequência, querer dispor de uma coisa que realmente não pertence ao médium.
Afirmar o contrário é enganar os que pagam. E, ainda, há mais: não é de si mesmo que o explorador necessitará para o fenômeno. Ele precisará contar com os Espíritos, com as almas dos desencarnados, cuja colaboração é posta numa tabela de preços.
Esta ideia causa uma repugnância instintiva!
Foi esse comércio, degenerado em abuso, explorado pelo charlatanismo, pela ignorância, pela credulidade e pela superstição, que levou Moisés a proibi-lo. O Espiritismo atual, compreendendo o lado sério dessas questões, para desacreditar aqueles que se lançam a este tipo de exploração dos incautos, elevou a mediunidade à categoria de missão. (Ver em O Livro dos Médiuns, o capítulo XXVIII e na obra O Céu e o Inferno, o capítulo XI.)
10. A mediunidade é um dom sagrado, que deve ser praticado sagradamente, religiosamente. Se há um gênero de mediunidade que requer esta condição de um modo ainda mais total, essa é a mediunidade de cura.
O médico humano dá o produto de seus estudos, que são feitos ao peso de sacrifícios por vezes penosos. O magnetizador doa seu próprio fluido e, não raro, a sua própria saúde. Estes dois podem pôr preços em seus serviços.
Já o médium de cura transmite o fluido salutar dos bons Espíritos. Isto ele não tem o direito de vender. Jesus e seus Apóstolos, embora fossem pobres, nada cobravam das curas que operavam.
Que aquele, pois, que não tem do que viver, procure os recursos que necessita no campo do trabalho, mas nunca na mediunidade.
Que ele consagre à mediunidade, se assim for preciso, apenas o tempo de que possa dispor materialmente. Os Espíritos levarão em conta o seu devotamento e os seus sacrifícios pessoais, mas se afastarão daqueles que esperam fazer deles degraus de uma escada para alcançar os seus objetivos comerciais.