Livro Os Dragões

Os Dragões
Wanderley Oliveira pelo espírito de Maria Modesto Cravo
Editora Dufaux – 1 Edição – Agosto/2009.

Pg 187

Mediunidade

… Espíritos arrependidos como Matias não retiram tanto proveito de malformações psíquicas. Para isso, nada melhor que o retorno acrescido de uma condição que lhes permita trânsito livre pelas várias camadas da vida mental, sem que isso os desequilibre.
- E como isso é possível?
- Dando-lhe um escafandro com o qual possa mergulhar nas partes mais sombrias de si mesmo sem se perturbar. Esse escafandro é a mediunidade, a mais cristalina fonte de autoconhecimento e auto-revelação. Ela funciona como um espelho cravado no solo da vida mental, obrigando seu portador a se olhar ininterruptamente. Os médiuns, comumente, são almas que não olham para dentro, de si mesmos há milênios. A mediunidade é uma força de atração para dentro estimulando o processamento íntimo de tudo aquilo eu o médium percebe, com amplitude do lado de fora. É uma legítima antena “puxando” de fora prá dentro e integrando o médium, de forma educativa, na larga capacidade de percepção da vida que lhe permite a sua faculdade espiritual.

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Pg. 199

Dr. Inácio em conversa com a entidade Clarisse mediunizada pela Dna Modesto nos primórdios do Casa Sanatória de Uberaba, âncora do hospital Espiritual Esperança, sobre o tema Dragões.

- Clarisse, apenas mais uma pergunta – rogou Inácio, desejando aprender mais na sua nova função de dirigente.
- Indague, meu irmão.
- A comunicação de Matias neste noite trouxe-lhe benefícios?
- Imensos benefícios. Esse contato com a matéria, para um Espírito nesse estado, é de extrema importância. O organismo físico é um depósito inigualável de energias ectoplásmica. A constituição molecular deste pacote energético é impossível de ser clonada em nosso plano (espiritual). É o estágio semimaterial das forças mais sutis que gravitam entre o perispírito e o corpo físico. Ela é gerada e sofre mutações importantes no duplo etérico do médium, em atendimento às necessidades mais prementes dos desencarnados.
Quando o médium se desloca do corpo, há uma natural expansão do duplo, também conhecida por cascão astral e por automatismo, esse pacote de forças é atraído para a constituição perispirítica da entidade comunicante que se lhe adere. É como se fosse a roupa do médium em outra pessoa. O duplo passa temporariamente a se acoplar ao espírito comunicante como um cobertor acolhedor.
Evidentemente, em razão da descompensação de forças mentais nas quais se encontra Matias, esse aporte do duplo etérico da médium vai servir como um legítimo balão de oxigênio, suprindo o que lhe falta até o limite em que não prejudique o equilíbrio da médium.
Os sinais mais carcaterísticos do momento da separação são sentidos pelo próprio aparelho orgânico do médium, por um desconforto registrado em forma de irritação ou fraqueza. Nesse momento, quando o médium tem suas faculdades sob controle, ele mesmo, mentalmente, faz a reconstituição dos corpos sem perder o contato com a entidade que, se necessário, ainda poderá manifestar seus pensamentos. Esse fenômeno que envolve o duplo etérico é chamado de incorporação. São cedidas, portanto, as chamadas energias vitais da vida material.
O comunicante, ao se retirar, fica com todo o seu corpo espiritual envolvido por uma espécie de pomada branca, ora em estado gasoso, ora gelatinoso. Os assistentes que orientam o trabalho utilizam-se dessa condição para as mais ricas medidas em favor do desencarnado. Volto a frisar, esse fenômeno é mais conhecido como incorporação.
Temos também o chamado vampirismo assistido, que é um processo no qual são envolvidos os corpos material, o duplo etérico, o perispírito e o corpo mental. É algo ainda mais profundo que a incorporação, em que o vínculo deixa de ser puramente mental, chegando a níveis celulares no corpo do médium. Há, nesse caso, uma intensa transferência de forças vitais e uma interação entre o corpo mental do médium e da entidade com objetivos de recuperação de formas perispiríticas e sensações perdidas em milênios de padecimento.
O vampirismo assistido é uma técnica de automatismo que não comporta muito controle ou participação consciente do médium. Por isso mesmo, só deve ser praticada em situações ocasionais e sob intensa supervisão espiritual. A espontaneidade é fundamental em tal operação. É necessária uma entrega incondicional do sentimento e do corpo físico do médium. Mais uma razão para ser praticada por médiuns mais experimentados, que já tenham disciplinado suas forças medianímicas, por possuírem noções mais claras dos limites permitidos nesse gênero de trabalho. Por se tratar de transes profundos, nem sempre ele tem como aferir essa necessidade. Para suprir essa situação, é preciso uma equipe que tenha consciência do que está realizando. Que haja muito respeito e confiança, considerando que, em várias dessas situações, o médium terá de ser contido fisicamente, exigindo muita integridade moral de todos para essa finalidade.
Não será demais chamar esse contato mediúnico de uma autêntica “reencarnação relâmpago”, na qual a entidade em desalinho, pela intensa ligação com o corpo físico do médium, desperta nas matrizes profundas do seu corpo mental algumas motivações evolutivas que o tempo e a dor lhe subtraíram. Casos existem nesse capítulo da mediunidade em que o acoplamento celular recompõe instantaneamente forma espirituais que poderiam levar séculos no trabalho de recuperação em nosso plano de ação. O corpo físico é uma usina divina de forças capazes de influir decisivamente nos corpos espirituais.
Ficou claro, doutor?
- Agradeço suas preciosas informações, Clarisse. Por hoje interrompemos nossa lição. Do contrário eu próprio pedirei internação aqui no sanatório.

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Pg 206

Mediunidade de incorporação profundo ou vampirismo assistido de entidades retiradas dos lagos de enxofre.

Já se passavam cinquenta minutos de minuciosas ações no perispírito de Matias. Orava contrita pela iniciativa, quando um chamado inesperado convocou Clarisse aos portais de saída de Hospital Esperança.
Convidada a ir junto (Modesta), não pestanejei. Deixei a vidraça, pedindo a Deus que abençoasse Matias em sua recuperação.
Chegando aos portais, Clarisse foi esclarecida por Cornélius:
- Recebemos um pedido de urgência dos abismos. Eurípedes está ferido e houve uma reação bem organizada dos cliclopes nos paredões de penitência no Vale do Poder.
- Vamos partir imediatamente! – afirmou Clarisse. – Dona Modesta nos acompanhará.
Sem se opor à minha presença, partimos em direção às furnas do mal. Clarisse, eu, Cornélius e mais um grupo de defesa do Hospital Esperança.
Chegando ao local, presenciei algo inusitado. O Ciclope da mitologia grega não era pura imaginação.
Indaguei de chofre:
- Quem são os cliclopes, Clarisse?
- Espíritos rudes a serviço do mal. Estamos na região subcrostal chamada Pântano das Escórias, subúrbio enfermiço do Vale do Poder. Aqui são feitos prisioneiros os servidores da maldade organizada que não obtiveram êxito em seus planos nefandos. Castigos e sevícias de todo o porte são levados a efeito nestas plagas.
- Por que viemos aqui?
- Venha! Vamos encontrar nossa equipe.
Logo adiante estava Eurípedes com uma equipe de vinte a trinta defensores. Tinha o braço ferido. Quem imagina os espíritos isentos dessa contingência, não concebe com exatidão os mecanismos fisiológicos e anatômicos do corpo espiritual, sujeito, nas proximidades vibratórias da Terra, às mesmas injunções de saúde e doença, dor e prazer. Um corte de dez centímetros na altura do ombro do benfeitor era cuidado com carinho por uma diligente enfermeira da equipe. A diferença ficava por conta do domínio mental. Enquanto era tratado, conversava atentamente com os presentes sem demonstrar uma nesga de sofrimento. Os ciclopes o feriram com seus chicotes impiedosos. Tive ensejo, ali mesmo, de manifestar meu carinho ao amigo querido. Embora minha surpresa, o tempo e a experiência foram me mostrando que tudo era possível ocorrer em tais tarefas socorristas. Incêndios, tiroteios, ciladas, guerras armadas e outras tantas manifestações de violência já conhecidas da humanidade. Não cheguei a ver os ciclopes naquela ocasião, mas só a onda de crueldade deixada no ambiente já me apavorava. Clarisse não regateava esclarecimentos a mim.
- Estamos no inferno de Dante, dona Modesta.
- Parece-me ser até pior do que ele descreveu.
- Sem dúvida.
- O que faremos agora?
- A tarefa por aqui está cumprida. As entidades que necessitavam de socorro já foram levadas para onde prosseguirá o trabalho.
- Eram almas arrependidas?
- Não. Eram escravos da perversidade. Servidores inconscientes das sombras. Foram necessárias mais de quatro horas de intensas iniciativas para alcançar resultados no amparo. Ainda assim, veja o estado de nossos companheiros. Eurípedes ferido, os defensores exaustos e tudo isso apenas para que seis entidades pudessem ter acesso à manifestação mediúnica.
- Vão se comunicar a essa hora da noite? Que centro abrirá suas portas? – expressei sabendo que já passava da meia-noite no relógio terreno.
Os verdadeiros servidores cristãos só se utilizam do relógio com intuito disciplinar. Não condicionam o ato de servir aos ponteiros limitantes do tempo. Visitaremos o Centro Umbandista Pai Guiné, nos arredores de Uberaba.
- O pai-de-santo Ovídio?
- Ele mesmo.
Tive de confessar, em um primeiro momento, meu preconceito. Guardava respeito pelas demais religiões, entretanto, nunca havia refletido sobre quem seriam e onde estariam as cartas vivas do Cristo. Por uma tendência natural asilei o despeito. Ainda bem que foi algo muito passageiro em meu coração, porque as experiências fora e dentro da vida corporal, cada dia mais, apresentavam-me uma realidade distante das ilusões que adulamos sob o fascínio impiedoso do orgulho na sociedade terrena dos mortais.
Após as despedidas, a equipe de Eurípedes regressou ao hospital. O pedido de socorro foi uma medida preventiva. Apesar dos feridos e exaustos, todos guardavam o clima de paz.
Por nossa vez, partimos para o Centro Pai Guiné. Era um ambiente agradável em ambos os planos. Ao som dos atabaques, eram cantados os pontos em ritmo vibratório de alta intensidade. Cada canto era como uma verdadeira queima de fogos de artifício. Uma bomba energética explodia no ar em multicolores.
Em uma das várias dependências astrais da casa havia uma enfermaria com oitenta leitos bem alinhados. Tudo nesse salão era limpeza e calmaria. Lá não se ouviam mais os cantos, e a conexão com o plano físico limitava-se ao trânsito de enfermeiros pelos vários portais interdimensionais. Regressamos ao ponto de intersecção vibratória com o plano físico.
Seis macas estavam dispostas no canzuá (terreiro). Em cada qual havia uma entidade de aspecto horripilante. Olhos que quase saiam das órbitas oculares, pele murcha, enrugada e suja, garras enormes no lugar de unhas, com dez centímetros, nas mãos e nos pés, todas retorcidas como as de águia. Magérrimos e nus. Causavam náuseas pelo odor. Olhavam para nós deixando claro que nos viam e, literalmente, grunhiam como porcos com a boca semiaberta. Alguns deles estavam muito inquietos nas macas. Retorciam-se como se estivessem com dor, sem manifestar nenhum som. Vários hematomas estavam expostos em todos eles, devido aos castigos impostos nos paredões de penitência.
- As garras são colocadas para impedir a fuga. Não andam nem têm grande habilidade manual – informou Clarisse, com manifesto sentimento de piedade.
- Como serão socorridos?
- Pela incorporação profunda ou vampirismo assistido.
- Nos médiuns umbandistas?
Mal terminei a pergunta e vi uma cena convencional. Um dos enfermeiros da casa pegou uma das entidades no colo e jogou-a no corpo do médium.
Demonstrando câimbras na panturrilha, o médium, incontinenti, absorveu mental e fisicamente o comunicante que se ajeitou no corpo do medianeiro como se deitasse em um colchão, buscando a melhor posição. Os atabaques aceleraram o ritmo, criando um frenesi de energia no ambiente. Formavam-se pequenos redemoinhos de cor violeta e prata, que se desfaziam e refaziam em vários cantos do terreiro. Modulavam conforme a nota musical dos hinos cantados.
O médium estrebuchou no chão. Convulsões e grunhidos seguidos de gritos de dor. Ovídio, o pai-de-santo aproximou-se e disse:
- Oxalá proteja seus caminhos, filho de Zambi (Deus).
- Eu sou filho do capeta. Quem és tu para falar comigo? – redarguiu a entidade, que agora falava com facilidade por intermédio do médium.
- Sou um tarefeiro da luz.
- Eu sou um escória da sombra.
- Engano, criatura!
- Não vê minas garras? Sabe o que isso?
- Conheço essa técnica. São ferrolhos ao mal.
- Vejo que estais acostumados ao mal.
- Vim desses vales da sombra e da morte – falava Ovídio com firmeza na voz.
- Mas andas e és livre. Estais no corpo, enquanto eu… Eu sou um verme roedor… Ou quem sabe uma águia que não voa… Nem sequer consigo andar graças a essa maldição que colocaram em meus pés… Nem comer mais… Veja minhas mãos… Eu tenho fome e sede.
- Em que te posso ser útil irmão? – Indagou Ovídio debaixo de uma forte vibração.
- Quero bebida e comida. Quero que cortem minas garras.
- Laroyê! Laroyê! (Saudação ao exu) – gritou Ovídio já incorporado por um de seus guias que entoava o canto: “Eu sou Marabô, rei da mandinga. Eu sou Marabô, exu de nosso Senhô. Laroyê!”
Uma energia colossal movimentou-se com a chegada do Exu Marabô. Os filhos-de-santo o saudavam com palmas rítmicas e pontos próprios da entidade. Muitos deles iam até Marabô, baixavam a cabeça em sinal de reverência à sua frente e batiam três palmas rítmicas na altura do abdômem do médium.
- Que tu quer, homem esfarrapado. Bebida prá mode se arrebentá mais?
- Não, senhor Marabô. Não é isso não.
- Não mente prá Marabô. Marabô sabe ler os oi (olhos). Nos oi tá a visão, mas tá também a verdade e a mentira.
- Eu não minto, senhor. Quero liberdade.
- Prá fazer o que dá na cabeça? Home tu preso é um perigo, livre é um desastre.
- O que o senhor vai fazer por mim? Não pedi a ninguém pra sair daquela joça de lugar fedorento. Por que me trouxe aqui?
- Não fui eu quem trouxe home. O veio Bezerra da luz é teu protetor. Sirvo a ele na graça de Oxalá, Pai de poder e misericórdia.
- Que queres comigo?
- Está feliz na matéria do cavalo (médium)?
- Sei que não é minha. Quero uma só prá mim.
- Esta gostando do contato?
- Só farto bebida e comida.
- Olha suas garras.
- Não pode ser! O que aconteceu?
- O cavalo tá dissolvendo suas algemas.
- Pra sempre?
- Pra sempre!
- Quanto vai me custar?
- Nada. É serviço de Pai Oxalá. É de graça. Pedido do veio Bezerra de Menezes. Se voltar pro inferno, elas crescem de novo. Se subir com Bezerra da luz, vai ser cuidado no hospital da sabedoria, onde reina os filhos de Ghandhi.
- Filhos de Gandhi? Por que se interessaria por escórias como nós. Veja lá nas macas os amigos estropiados – e apontou para a sala do lado.
- Nada retira do ser humano a condição de Filho do Altíssimo.
Dita essa frase, o espírito comunicante silenciou, enquanto o Exu Marabô fazia alguns rituais em cima do corpo do médium. Instantaneamente, o médium convulcionou-se. Quatro auxiliares no plano físico continham o medianeiro a duras penas. Não sendo o suficiente, mais três se aproximaram. Olhando de cá, não se sabia mais quem era o médium e quem era o desencarnado. Uma gosma saía pelas narinas e pela boca. Espasmos e taquicardia intensa eram aferidos por médicos atentos que monitoravam o médium e a entidade. O fenômeno era totalmente supervisionado. As unhas da mão e dos pés do comunicante sangravam. As garras foram arrancadas até a raiz. Dores intensas e muita confusão mental assinalavam seu estado geral. Sedativos potentes foram aplicados no corpo espiritual do médium, diluindo no corpo do assistido. Repentinamente uma calmaria. Cessaram as convulsões. Na medida em que o médium recobrava os sentidos, a entidade os perdia. Ajudado por integrantes do Centro de Umbanda, o médium levantou-se vagarosamente e foi colocado em um pequeno colchão para refazimento. Em nosso plano, padioleiros disciplinados repetiam o procedimento com todos os outros cinco doentes de uma só vez em cinco médiuns distintos que, ao mesmo tempo, receberam os demais prisioneiros dos vales sombrios.
Após os serviços de higiene e primeiros socorros, ainda na enfermaria do Centro Umbandista, Clarisse convidou-me para o primeiro contato com aquela criatura. Cornélius que se encontrava entre nós durante todo o trajeto, desde a saída do hospital, foi responsável pelo diálogo.
- Como está agora meu filho? Agora já consegue falar com um humano, filho do Pai.
- Filho? – mesmo sedada a entidade dava mostras de inteligência. – Não sou seu filho. Sou um carrasco.
- Ainda assim, filho de Deus e nosso irmão.
- Que ladainha é essa? Quem é você?
- Sou Cornélius, não se lembra?
- O mergulhador do lago de enxofre?
- Isso mesmo.
- Então foi você quem nos tirou daquela lama fétida!
- Em nome de Jesus Cristo e doutor Bezerra.
- Agora veio cobrar o preço pelo trabalho que não paguei. Quanto ao tal Bezerra quer?
- De jeito nenhum. Trabalhamos por amor.
- E quer que eu acredite nisso!
- Não! De você só quero uma coisa.
- Sabia que viria algo em troca. Nada nesse mundo é de graça!.
- Quero que fique bem e restaure a paz.
- Acredita mesmo que um dia vou conseguir isso? O Exu lá na matéria falou de um hospital. É a casa do Barsanulfo?
- Sim, é lá mesmo.
- Muitos amigos da lama querem se tratar lá. Não sabemos como chegar. Você, por acaso, vai me dar o endereço?
- Vamos te levar lá, apenas isso! Nosso intuito é te livrar dessa escravatura e, igualmente, àqueles que você, sem querer, prejudica.
- A quem prejudicamos?
- Em especial, nosso irmão H.
- Ah! Então é isso! A preocupação de vocês é com o doutor H., aquele magnata do Espiritismo!
- Com ele, mas com você também.
- Acha mesmo que os mandantes vão parar? A gente sai e eles arrumam novos capatazes. O doutor H. é um devedor. Fez parte das fileiras…
- Nosso irmão, como qualquer um de nós é um batalhador em busca de remição. A pereseguição a ele infligida ocasionou consequências mentais e emocionais graves.
- Ele merece. É um orgulhoso de carteirinha. E, de mais a mais você sabe de onde ele veio.
- Qual de nós, meu filho, não tem histórias e dramas com o inferno?
- Creio que o melhor é aceitarmos que a Terra é do demônio. Assim todos serão felizes.
- Assim todos serão iludidos até se atolarem na maldade como meio de justiça.
- Pois é… E como ser diferente? Quem olha por quem, não é mesmo?! Tudo é interesse. Egoísmo.
- Nós estamos aqui olhando por vc. Nosso interesse é você, seu bem-estar.
- E logo vão me apresentar uma farta conta, não é mesmo? Só de injeção devo ter tomado umas dez! Qual será o preço disso?
- Não queremos nada. O tempo e a sua recuperação serão as melhores respostas para sua ironia em nos intimidar. Por agora quero que descanse. Amanhã você já acordará no Hospital Esperança.
- Acha mesmo que mereço ir a esse paraíso?
- Lá não é um paraíso, meu filho. Ao contrário, é lugar de almas arrependidas. Um purgatório de culpas e dores acerbas. Não fossem as expressões do amor que lá vigoram, seria algo muito similar ao lugar de onde você veio.
- Amor? E você ainda acredita nessa mentira? Amor é uma velha estratégia de poder. Diga-se de passagem, cada dia mais fraca e sem alcance. O tal Eurípedes e Jesus podem desistir desse método de convencimento. A Terra está perdida!
A entidade ainda fez uma fisionomia de debocha, mas não conseguiu reagir aos sedativos. Adormeceu. Ouviam-se ainda os cantos no Centro de Umbandista. Desta vez dirigidos a Oxumaré e Oxalá para acalmar o ambiente. Passavam de duas horas da madrugada. Impressionou-me o vigor dos médiuns umbandistas. Ao voltar prá seus lares, brincavam como crianças sem nenhuma menção ao labor realizado. Desprendido da doação e com extremo bom humor. Ovídio e sua esposa levavam em seu automóvel as senhoras mais idosas. Os mais jovens seguiam a pé pelos matagais em direção às zonas rurais de Uberaba. Todos assistidos por nobre entidades do amor e do bem em nome de Bezerra de Menezes. Heróis anônimos de um tempo de coragem e pura espontaneidade. Por nossa vez, seguíamos para o hospital, pois a atividade ainda era intensa. Já se aproximando a manhã, foi a própria Clarisse que me procurou e disse:
- Imagino que esteja curiosa sobre muitas das ocorrências desta noite, dona Modesta.
- Clarisse, sinto-me como se estivesse em um país distante e, ao mesmo tempo, tão próximo. Não sei o idioma, não conheço ninguém, enfim, estou mentalmente sem referência, embora tudo me seja muito familiar (Obs Antônio: Dna Modesta, na personalidade daquela vida, não tinha ainda participado de incursões no astral em estado de desdobramento, por estar com o mental concreto ainda sem as informações a respeito do hospital e das ações ali existentes, sente no fundo da alma que tudo lhe é familiar, e ao mesmo tempo tudo é estranho).
- É assim mesmo! Quando nos está reservada uma missão, inicialmente, ficamos atordoados e inquietos sem entender claramente os motivos. Tudo o que a senhora tem presenciado será o alicerce de uma grande tarefa, que reunirá velhos compromissos da caminhada.

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Pg. 291
Dna Modesto recorda-se da última existência na frança.

(Clarisse responde sobre a reconstituição perispiritual de Matias a Dna Modesto)
- … nesse caso, conforta-nos saber que as células do corpos espiritual estão reagindo favoravelmente e retomando suas funções. Começa novamente a absorver o fluido vital da natureza ambiente com independência. Seu perispírito está em plena atividade de resgate do equilíbrio por meio da osmose natural nos intrincados processo da vida mental.
_ (Modesto) Que boa notícia! Tenho um sentimento maternal por Matias.
- Sinto-me nessa condição.
- Não se recorda?
- Não?
- Venha comigo, dona Modesta. Este é seu instante de revelação! – Clarisse levou-me até o leito de Matias.
- Olha para Matias e diga-me o que sente.
- Sinto piedade, dor, desalento.
- Chegue mais perto do rosto dele e olhe fixamente no centro frontal.
- Sinto um calor… Uma força me atrai, como se quisesse encostar minha testa na dele.
- Faça isso, dona Modesta, enquanto vou orar.
Não consegui conter o ímpeto. Ao tocar no corpo de Matias, fui sugada para dentro de um túnel que tinha cores diversas. Saltei com em um mergulho e podia ver uma tela branca no fim daquele lugar. Nela estampavam-se cenas de uma tempo.
Uma mulher imponente vestida como rainha. Olhos esbugalhados, uma testa larga e cabelos negros bem penteados. Roupas suntuosas e um palácio encantador. Tudo tinha vida e sentimento para mim. Repentinamente, senti-me no lugar daquela mulher. Já não via o filme, eu o vivia. Ao se colo estava um jovem com aproximadamente vinte anos. Os dois conversavam, enquanto ela afagava sua cabeleira recheada. Falavam de planos para o futuro. Passei tão intensamente a viver a cena, que tinha noções de tempo. Era uma tarde. Os dois tomavam um chá amargoso próprio daquela região. Era Paris, cinco da tarde do dia 18 de outubro de 1571. O jovem é Carlos IX, rei de França, no colo de sua mãe, a cruel rainha Catarina de Médicis, descendente dos Valois. Quando dei por mim, tinha detalhes da cena que me impressionaram. Sentia-me como sendo aquela mulher, todavia, quando olhei para Carlos em meu colo, ao observar seu rosto, percebi que era o rosto de Matias. O choque foi tão grande que saí do transe e coloquei-me novamente de pé diante de Clarisse, muito zonza. Com dificuldade de entender o que me acontecia, só consegui ver Clarisse assentar-se em uma cadeira próxima e tive um desmaio. Assim permaneci por alguns minutos. Não me lembrei de nada quando recobrei os sentidos.
- Como se sente, dona Modesta?
- Clarisse de Deus! O que me aconteceu?
- Uma regressão induzida.
- Tive um sonho do qual não me recordo! Só sei que me causou más sensações.
- Não foi bem um sonho. Foi uma recordação vivia em seu campo mental.
- Por que não me recordo?
- Proteção. Estamos a preparando mentalmente. Pelos efeitos do contato com esse passado, poderemos aquilatar em que nível lhe permitir esse acesso.
- Acesso?
- A senhora poderá consultar seus arquivos reencarnatórios aqui no Hospital Esperança. Descobrir quem tutela suas encarnações nos últimos milênios, quem são seus laços no corpo físico, estudar seu vínculo com Matias e, sobretudo, descortinar os compromissos futuros que a aguardam. Todas as cenas agora percebidas em suas recordações poderão ser reativadas a qualquer instante, por meio de aparelhagem especial, e gravadas para seus posterior conhecimento.
- Meu Deus! E quando isso me será permitido?

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Pg. 302
A ideia de missão em assuntos da mediunidade.

…A missão de Chico é consolidar a conduta de desprendimento, o esquecimento de si mesmo, uma missão social perante o grupo judaico-cristão.
O Chico Xavier é o missionário do amor enviado pelo Mais Alto para garantia dos rumos superiores dos ensinos espíritas na Terra. Sem nenhum menosprezo a valorosos expoentes que se devotaram a seguir-lhe o exemplo e também a nós outros, que estamos dando os primeiros passos no desenvolvimento das potencialidades mediúnicas, somos, via de regra, almas em busca de reerguimento consciencial pelo exercício cristão da mediunidade.
A ideia de missão em assuntos da mediunidade pode ser vista de dois prismas: existem os que têm missões cujo cerne é a própria redenção. Além desses, raríssimas vezes, encontramos os que estão aptos a trabalhar pela redenção de multidões. Podemos ter, portanto, uma missão individual e outra coletiva, sendo que na maioria dos casos, em se tratando de movimento espírita, nossa missão como médiuns, antes de tudo, objetiva nossa melhoria psicológica por meio da harmonia no reino da consciência.
- Clarisse, quanta novidade para minha ignorância! Quanta beleza em suas palavras!
- Deus é Pai, dona Modesta!……………………………

Pg 314
Efeitos da guerra de 1945 – 1945….

A guerra foi o vômito de ódio que regurgitou no orbe desde a passagem do Cristo, que trouxera o remédio para as doenças de nossa raça.
O transporte da árvore do evangelho continuava célere. O pós-guerra permitiu um afrouxamento nas prisões infectas do Vale do Poder (astral inferior). As atenções das organizações inferiores se mobilizavam integralmente para remendar os efeitos da catástrofe, que se fizeram evidentes na sobcrosta astral a partir da derrocada de Hitler. Um clima de alvoroço e desespero por lá se instalou quando perceberam as medidas dos Mentores Planetários. Correram notícias de que Jesus estaria novamente na matéria, o que lhes consumiu ainda mais os dias em perseguições infrutíferas e sem sentido. O caos também se instalou nas furnas da maldade. Uma reação em cadeia atingiu os vales da somra e da morte. O fogo etérico que seria narrado em 1946 na colossal obra literária de André Luiz em Obreiros da Vida Eterna, assustava as mais altas patentes da maldade organizada por sua força devastadora. Essa tecnologia de defesa do século XX, sendo aperfeiçoada pela física quântica que, nas esferas espirituais, já tinha largo desenvolvimento nesse tempo.
A deportação em nossa casa planetária já havia começado no tempo de Jesus Cristo. Uma das razões mais evidentes da consolidação do Vale do Poder, 1500 anos antes da chegada do Messias, foi exatamente a notícia que se alastrou de sua vinda, criando um cadeia de fatos históricos em torno desse vinda prometida. Diz o evangelista Marcos, cap. 1 vers. 13: “E ali esteve no deserto quarenta dias, tentado por Satanás. E vivia entre as feras, e os anjos o serviam”. Esse foi o ponto culminante dessa saga de lutas e horrores que desfiou as raízes para uma história que não terminaria naquelas quarenta noites de testemunhos, gerando 2.000 anos de atrocidades que, quando estudados pela antropologia de nosso plano, deixam claras quais foram as decisões de Lúcifer quando frente a frente com Jesus. Acrescenta Lucas, cap. 4, vers. 2: “e quarenta dias foi tentado pelo diabo, e naqueles dias não comeu coisa alguma; e, terminados eles, teve fome”.
Não há local vibratório na Terra em que os espíritos de Maria não possam entrar. A limpeza dos mandantes da guerra foi efetivada até meados da década de 70. Um trabalho cuidadoso foi feito para chamar a atenção dos dragões, que supunham que seus comparsas já estavam sendo deportados, embora estivessem sendo recambiados à matéria. Essa medida evitou, por alguns anos, maiores obstáculos ao processo, até que descobrissem o destino dos nazista. Algo que ocorreu nos fins da década de 50, vindo a tomarem um enorme interesse pela África. Um novo ciclo se iniciou.
Não havia com quem dividir semelhantes informações, a não ser com Inácio. Ele tornou-se, assim, o confidente dos meus registros mediúnicos. Já que o povo de Uberaba, em particular a Igreja, julgava-me um perturbada que cuidava de loucos, cuidava de conter minha língua……..
…………………. A década de 40 foi marcada por enormes lições para minha vida. Os apelos do mundo espiritual ampliavam um leque de necessidades incomensuráveis. Tinha a sensação contínua de que não daria conta.
Nossos pacientes no sanatório obtinham excelentes resultados com as técnicas de desobsessão. Inácio, aproveitando sua veia científica, iniciou a escrita de seus livros nesse tempo. Suas pesquisas sobre a vida mental e a influência da obsessão e da reencanação, durante a décadas, constituíram uma contribuição que acentuava a idoneidade do sanatório. …..

Pg. 327
O teste para o orgulho…
(Fala Dna Modesta para Odilon Fernandes, hoje, no mundo espiritual, dirigente de uma faculdade mediúnica onde prepara os futuros médiuns para missões aqui na terra em novas vidas).

….Jesus incomodou e incomoda até hoje. Sua beleza espiritual é um espelho continuamente voltado para quem se interessa por Sua proposta de redenção.
O maior teste para nosso orgulho consiste em estar diante da superioridade alheia. A luz dos outros revela-nos a sombra interior. Os alegres assustam os mal-humorados. Os bons perturbam os mal intencionados. Os destemidos são lembretes vivos para os acomodados nas teias do medo. Os empreendedores atiçam a impotência dos despreparados. Os inteligentes insultam os ignorantes. O virtuoso, sem desejar, desnuda as mazelas de quem pretendia mantê-las ocultas de si mesmo. As conquistas espirituais manifestadas na boa vontade e na capacidade de servir são um estorvo para almas como nós, ainda inseguras e vacilantes na caminhada de melhoria moral. Por essa razão diz um velho ditado do tempo de meus avós, “mourão junto não faz cerca”. Dois mourões juntos entram em tamanha disputa para saber quem é o maior, que terminam esquecendo sua função essencial, que é arrimar uma cerca.
Assim, atazanados pelos êxitos alheios, perdemos a autenticidade procurando parecer o que não somos para diminuir a luz que nos ofusca; sentindo-nos impotentes diante da agilidade e destreza de outrem, não conseguimos conter os ímpetos da maledicência, com a qual procuramos empanar o brilho do próximo. E, em muitas ocasiões, não sabendo como reduzir a superioridade de outrem, adotamos a indiferença como único recurso de proteção contra nossa própria fragilidade.
- Que recomendação a senhora e nossos benfeitores teriam para semelhante tragédia das nossas relações, dona Modesta?
- Doutor, a recomendação é do Cristo que diante da disputa dos apóstolos para saber quem era o maior, enunciou a desafiante proposta educativa narrada em Mateus, cap. 18, vers. 4: “Portanto, aquele que se tornar humilde como este menino, esse é o maior no reino dos céus.” Jesus utilizou-se da criança para criar um modelo de exemplo cristão.
- Com que palavra a senhora resumiria esse ensino?
- Simplicidade.
- Ah, dona Modesta! Essa é a palavra sagrada que não sai da minha mente! Que bom ouvi-la da senhora. Até então acreditei que estava sendo ingênuo por acreditar nela. Acompanho essas situações lamentáveis que citei aqui em Uberaba, em algumas casas espíritas. Começa a surgir um rigor dispensável nas diretorias. Estamos perdendo a simplicidade da boa conversa e da amizade, que são substituídas por aparelhos organizacionais distantes do acolhimento afetivo. Teorias e iniciativas novas surgem para uma maior propagação da doutrina. Muitos estudos, muita norma, pompa e escassa convivência cristã.
- Meu caro doutor Odilon, o conhecimento foi e continua sendo uma referência de aferição da importância pessoal em assuntos da alma. Em todos os tempos da história humana, ele foi o fundamento que definiu quem poderia ou não opinar nas questões espirituais. Sacerdotes e religiosos nas diversas ordens religiosas encontraram na cultura e na inteligência a insígnia pela qual se julgavam aptos ao serviço da redenção humana. Esse hábito arraigado ainda está presente em nossa cultura mental. Mesmo entre os adeptos da revelação espírita, fica evidente a influência de tal costume, …………….

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Sequencia do bate papo com o dirigente Atílio….

Os espíritos asseveram: “A sublimidade da virtude, porém, está no sacrifício do interesse pessoal, pelo bem do próximo, sem pensamento oculto. A mais meritória é a que assenta na mais desinteressada caridade.”
Doutor Bezerra tem nos contado muitos casos de religiosos, incluindo espíritas, que chegam ao Hospital Esperança em situações íntimas clamorosas e que se supunham, quando encarnados, verdadeiros campões de caridade cristã.
- Por conta do interesse pessoal?
- Isso que os Orientadores da Codificação chamam de “pensamento oculto” é o campo da vida mental que desconhecemos, e que muitos sequer desejam conhecer. Aí reside o interesse pessoal, que se disfarça dos modos mais sutis.
- É tão difícil se anular em favor da obra, meu Deus!.
Não creio que a questão seja se anular. O interesse pessoal faz parte da caminhada de ascensão. O problema é não saber radiografar suas formas subliminares de expressão. A desatenção total às suas armadilhas contínuas é que constitui o problema. Se anularmos o interesse, poderemos tombar no desânimo e na inconsequência em relação às responsabilidades a nós conferidas. Tudo tem de se situar na linha do equilíbrio. Hoje, infelizmente, para muitos de nós, uma realidade é patente: nem seque admitimos que existe o interesse pessoal de nossa parte nas tarefas em que cooperamos. Isso, por si só, já é uma grave questão.



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