Olhai os Lírios

Lírios de Esperança

Wanderley S. de Oliveira p/esp. de Emence Dufaux

Editora DUFAUX

Olhai os Lírios

“A Piedade é a virtude que mais vos aproxima dos anjos; é a irmã da caridade, que vos conduz a Deus. Ah! Deixai que o vosso coração se enterneça ante o espetáculo das misérias e dos sofrimentos dos vossos semelhantes.”

O Evangelho Segundo Espiritismo, capítulo XIII, item 17.

A alta madrugada impunha silêncio. Sob o lençol alvinitente, encontra-se o fiel servidor. A tez desfigurada pela dor física alterou-lhe os traços fisionômicos. Olhos semi-abertos digradiavam com a impiedosa febre da influenza.

Era o primeiro dia de novembro, ano bom de 1918. No dia anterior, a despeito de seu turpor, já havia previsto seu desenlace. Um lufada de forças sublimes tomou-lhe a cabeça, estancando o avanço acelerado da enfermidade. O doente repentinamente abre os olhos, recosta-se melhor no leito e observa uma luminosidade irradiante vinda do alto. Mesmo abatido pela peleja física, emociona-se às lágrimas. Uma suave cantiga de sua predileção brota-lhe na mente. As imagens inesquecíveis do coral entoando melodias… Recordava a inauguração do Colégio Allan kardec. Sentia-se transportado ao vitorioso dia em que abriu aos caminhos humanos um significado novo para o ato de educar.

Seu mundo mental agora se confundia entre a realidade das estreitas percepções físicas e os sentidos da alma. Dilatava-se a visão. Um vulto feminino desenhava-se em meio ao clarão das energias refazentes. Vestida com trajes típicos da era cristã primitiva, uma judia de olhos fulgurantes apresentava-se com ternura e serenidade:

- Eurípedes, servo do Cristo, sabes que sou?

Surpreendentemente refeito, ele responde:

- És tu, Mãe Santíssima?! Tão jovial e bela?!

- Venho em nome de meu Filho amado.

- Maria… Maria… – o discípulo fiel balbuciou o nome entre incontidas emoções que lhe afogaram as palavras.

- Eurípedes, mestre de Sacramento e servidor do amor, Jesus convoca-te a novos rumos. Uma classe de aprendizes emperdenidos suplica educação e luz. Um submundo de atrocidades e loucura está à espera de serviços imediatos. Chega o tempo de banir a escuridão da Terra, separar o joio do trigo. Um clarinada de paz desce de esferas maiores em direção aos pântanos da maldade. O Pastor conclama teu coração generoso a esse mister.

- Serva do amor, orienta-me, se posso auxiliar o Bem Maior.

- Este século será o tempo da alforria para a humanidade terrena. Urge, entretanto, salvar os escravos da ignorância e converter os senhores da perversidade. Uma sanha enfermiça lança-se nesse momento sobre o Consolador. A sociedade assiste, angustiada e estarrecida, aos efeitos da guerra cruel eu vitimou o mundo na epidemia do medo e da insegurança nesse primeiro quartel do século XX. Um império de trevas aguarda o lume da bondade… O Senhor prepara as trilhas para um porvir de glórias à Sua Mensagem Rediviva.

- Que fazer, Mãe Santíssima?

- Os pântanos da maldade estão repletos de almas tíbias. São lírios encharcados pela lama pútrida das imperfeições, mas não perderam o viço, a exuberância. Não deixaram de ser lírios. Ali jazem, atolados nos lamaçais da insanidade, muitos laços de nossa trajetória pela cristianização nesse orbe. Vem, servidor do amor! Uma obra de esperança e promessa encontra-se à tua espera. O Senhor Compassivo, no entanto, permite-te a continuidade junto ao templo corporal. Queres a cura ou aceitas a vereda da esperança?

- Mãe Amantíssima – falou Eurípedes ao prantos – faça-se em mim a vontade do Pai!

- Então, Filho Amado, recebe a unção prometida pelo Teu Senhor. O Espírito Verdade chama-te para o labor de implantação de Sua Leira Bendita. Nessa Terra abençoada, a mensagem do Consolador será a luz do mundo para o século. Auxilia, meu filho, na tarefa redentora do transporte da árvore do Evangelho. Estruge um grito de pavor e remorso nas grutas da sordidez. Quais meninos atormentados, suplicam socorro e alívio ante as bravatas de sangue e dor.

- Mensageira Bendita, quem são os sofredores a que te referes?

- Nos abismos, encontram-se os Lírios de Deus, aqueles que amam a mensagem do Cristo, todavia não souberam honrá-la. Inúmeras almas rebeldes que amam ao Cristo. Uma nação de exilados que o tempo não converteu. São lírios de esperança em pleno pântano de egoísmo. Olhai pelo lírios, meu filho. Jesus te chama para erguer-lhes abrigo acolhedor e oferecer-lhes descanso e elevação. Por quem o Senhor chorou naquela noite de abençoado encontro contigo? Lembras-te? (1)

- Sim, Digna Serva! Jesus chorou pelos que lhe conhecem os ensinos e não os vivenciam na atitude.

- Esses serão teus novos filhos. Doravante, serás o Apóstolo da Esperança. Darás conforto educativo aos cristãos de todos os tempos, que foram atingidos pelo encanto da negligência e pela tirania da ilusão. As Ovelhas Perdidas de Israel serão teus novos alunos. Ensina-lhes a pedagogia do amor. Restitui-lhes a Herança Divina de Filhos de Deus. Assegura-lhes suficiente misericórdia para o testemunharem o roteiro de Meu Filho Amado: “Meus discípulos serão conhecidos por muito me amarem.” Todos ainda vão florir, serão lírios nos campos da vitória. Vão embelezar os destinos da humanidade.

O Apóstolo sacramentano fora novamente surpreendido por novas visitações. Maria, a Mãe das dores do mundo, afastou-se de sua clarividência, e Doutor Bezerra de Menezes surgiu-lhe aos olhos do espírito. Não contendo mais as emoções, chorou como criança, sem dizer palavra. O velho paladino do Cristo estendeu-lhe os braços. Um abraço amoroso e, com incomparável leveza e naturalidade, Barsanulfo desprendeu-se do corpo como se deixasse uma veste de panos. A testa empapada de suor lívido decretou-lhe falência instantânea. Eram seis horas da manhã do primeiro dia de novembro. Trinta e oito anos na edificação de um monumento eterno…

Barsanulfo partiu para continuar. Partiu para servir com mais liberdade. A obra implantada na vida física teve continuadores honrosos. Seu desafio maior esperava-lhe nas esferas próximas ao orbe. Um exame de doentes de outra natureza lhe bateria às portas. Um nova dimensão de dores se lhe apresentaria aos coração bondoso. Uma nova ordem de lutas e armas a serem ensarilhadas. Um outro cortejo de aflitos para confortar. Uma classe de doentes emperdenidos suplicava-lhe a palavra salvadora, nos roteiros da educação de suas almas, clamando por piedade e compaixão.

Passaram-se oitenta e dois anos desse momento glorioso na vida do Apóstolo da Esperança.

Obs: A seqüência, capítulo 02 – Convocação de Eurípedes, pg 31 do referido livro.

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