Obra de Amor – Capítulo 18
“Porque indícios se pode reconhecer uma civilização completa?
Reconhece-la-eis pelo seu desenvolvimento moral”
O Livro dos Espíritos, questão 793.
Na manhã do dia posterior, Selena, atendendo ao convite do professor, aprontou-se para a ocasião. Sua fisionomia ainda abatida dava notas da tristeza com as recentes decepções.
Ao chegar à porta da sala de reuniões, uma agradável surpresa para seu coração sofrido: Marcondes lhe retribui o ramalhete de lírios em nome de Eurípedes.
- Marcondes! Quanta bênção imerecida! – ela falou com olhos marejados.
- Fico feliz que eu tenha sido o portador. Retribuo sua generosidade de outrora.
- Meu Deus! Eu não mereço! E como está você? ¬indagou com a voz embargada de emoção.
- Sinto ainda algumas dores abdominais. Apesar disso, intimamente, melhoro a cada dia.
Logo, todos foram convocados por auxiliares amoráveis ao início da atividade. Reuniam-se meia centena de internos em condições razoáveis de recuperação. Todos espíritas.
Dispostos em forma circular, iniciou o professor sua explanação com um largo sorriso:
- Amigos, Deus nos guarde em paz. Nosso encontro visa a oferecer mais detalhes sobre esta casa. Após semanas de internação, as fichas de vocês notificam auspiciosas melhoras em seus quadros. Conquanto muitos estejam internos em alas diversas, trazem em comum algumas predisposições para a colaboração. Alegra-nos semelhante atitude considerando a extensão de nossos afazeres. Façamos uma oração e comecemos.
Após uma prece, realizada com ternura incomparável por um dos servidores presentes, o professor iniciou sua explanação:
- O Hospital Esperança é uma obra de amor, erguida no plano espiritual por Eurípedes Barsanulfo, cujo objetivo é prestar abrigo e orientação aos seguidores do Cristo que não conseguiram ou não quiseram adotar o compromisso da vivência de Sua mensagem de amor. São às almas mais facilmente aliciadas pelas furnas da maldade em razão da disputa do gênio do mal com o Cristo. Os mentores de Mais Alto que avalizaram o projeto foram Agostinho de Hipona e João Evangelista entre outros integrantes da Equipe do Espírito Verdade. Sob convocação direta do Cristo, Eurípedes foi chamado, antecipadamente, em sua reencarnação gloriosa, para erguer este porto de pacificação para almas atormentadas pelo arrependimento tardio ante as clarinadas do Evangelho.
Acionando um controle remoto, surgiu ao alto um projetor holográfico que se localizou bem no centro da sala. Mais um toque e produziu uma imagem global do Hospital, inclinada em ângulo de quarenta cinco graus, que rodava lentamente. Parecia uma maquete quadridimensional com um nível de realidade surpreendente, pois havia movimento, cor, perspectiva perfeita e colocava à mostra os limites entre atmosfera física, e espiritual.
- Vejam esta imagem! É o formara do Hospital, vista de cima. Lembra um cata-vento com cinco hélices. É uma homenagem de Eurípedes à nossa galáxia. Cada hélice é um pavilhão. Ao centro, temos esse vitral em forma de uma cúpula, similar às mesquitas, que é a parte mais nobre e na qual nos comunicamos com as esferas mais elevadas. Os pavilhões se dividem conforme a natureza das necessidades de seus internos. Todos nós aqui presentes estamos vinculados ao pavilhão Judas Escariotes, coordenado por Dona Maria Modesto Cravo que já conhecem bem. Sob tutela de Judas Iscariotes, o Dourar Bezerra de Menezes iniciou as atividades desse pavilhão na década de quarenta. Judas é protetor dos cristãos visionários, quais nós próprios, que enxergamos demasiadamente sobre as necessidades do mundo, mas protelamos, quase sempre, a nossa própria libertação.
Os presentes olhavam com profunda atenção.
Conservando o mesmo ângulo e abrindo um pouco mais o diâmetro da imagem, novas dependências foram surgindo. Jardins suspensos, áreas naturais em ramo da construção… Agora parecia uma pequena cidade que se estendia em colméias ou bairros vizinhos. Uma visão aérea e panorâmica.
- Vejam que, especificamente, entre dois desses cinco pavilhões, saem dois corredores que partem do centro do subsolo. Observem que o formato agora nos lembra um moinho com suas pás girando e a suas hastes de sustentação como sendo esses dois corredores. Logo lhes mostrarei mais detalhes, em outra imagem, sob nova perspectiva. Estes corredores são os portais de entrada e saída para outras dimensões. Atingem cento e vinte metros de comprimento cada um. O corredor de entrada é o Portal de Acesso – Professor Cícero destacava essa parte da edificação com uma luz amarela. O outro corredor, de saída, é o Portal Dimensional. As alas restritas, as enfermarias para espíritos em estado grave e pacientes circunstanciais, as prisões, ficam naquele Portal de acesso. Esses corredores, que são os “pés do moinho”, ficam nos dois andares subsolos.
O professor colocava a imagem na posição em que desejassem os aprendizes. Alguns se levantavam de suas cadeiras e se aproximavam ante a exuberância da projeção. Podiam perceber claramente pessoas se movimentando na holografia como se, na verdade, a imagem estivesse sendo filmada concomitantemente com a apresentação. Mudando o ângulo de foco, continuou dizendo:
- Agora vejamos em linha horizontal como se estivéssemos entrando pela portaria. Observem que são cinco andares em todos os cinco pavilhões – e rodou a holografia como se desse uma volta completa, contornando horizontalmente o Hospital. Abaixo deste nível, temos o Subsolo 01 e Subsolo 02,totalizando sete andares em cada um dos cinco braços. Nos subsolos, há maior ligação com as regiões abismais e com a própria Terra. Uma cortina vibratória, que por hora vamos abdicar de explicar, separa esses níveis dimensionais sem, contudo, deixar de fazer parte da mesma obra. Observem aqui na portaria de entrada – e aumentou a proporção da imagem focalizada. Esta é uma réplica em tamanho natural da Casa do Caminho. Temos Pedro, Paulo e outros apóstolos reproduzidos em suas imagens naturais e reais, colhidas em arquivos de Dimensões Superiores e esculturadas por artistas de nossa casa. Além da réplica, quem visita o lugar pode ouvir, através de c1ariaudiência no tempo, os diálogos dos primeiros aprendizes do Cristo. É um verdadeiro templo de meditação e recolhimento. Agora, prestem atenção no versículo esculpido na entrada, narrado em João, capítulo treze, versículo trinta e cinco que diz: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros. ”
Quanto mais era mostrado, mais os participantes se encantavam em completa mudez, embora suas mentes fervilhassem de interrogações. Durou quase cinqüenta minutos a exposição. Muitas outras dependências fizeram parte da amostragem. Encerrada a fala, o professor se colocou à disposição para o diálogo e o debate por mais quarenta minutos. Foi Marcondes quem iniciou, indagando:
- Existe possibilidade de localizar o Hospital em relação à geografia da Terra?
- A “Casa de Eurípedes”, em suas origens, está intimamente ligada à história do Sanatório Espírita Uberabense, fundado pela família de dona Maria Modesto Cravo. O Hospital Esperança faz parte do Planejamento do Espírito Verdade no transporte da árvore do Evangelho para o Brasil. Logo depois de lançada as bases da doutrina em plena França positivista, o Espírito Verdade trouxe as sementes doutrinárias para esse rincão que, há esse tempo, já estava predestinado, há quase quatrocentos anos, em se tornar o celeiro da mensagem cristã à luz da imortalidade. Eurípedes reencarna em 1880, deixando na vida espiritual um projeto em andamento, no qual faz parte Dona Modesta e um número imenso de almas. Em 1899, dona Modesta regressa ao corpo. Na sua juventude, reencontra com o apóstolo de Sacramento. É curada por ele e recobra o compromisso assumido. Eurípedes retorna à vida espiritual em 1918 para continuar seu projeto, e Dona Modesta assume o compromisso de erguer o pólo de ligação terrena com a obra já iniciada no mundo espiritual e, temporariamente, sob tutela de Doutor Bezerra de Menezes, desencarnado em onze de abril de 1900. O Sanatório Espírita Uberabense foi inaugurado em 31 de dezembro de 1933. Na erraticidade, Eurípedes lança as sementes do Hospital Esperança em plena década de trinta. O entrelaçamento desses núcleos de amor e redenção foi cada dia se estreitando, a ponto de tornar-se o primeiro núcleo avançado de ligação do Hospital Esperança com a Terra.
- Professor – pediu a palavra um trabalhador do estado do Amazonas – por que o nome Hospital Esperança?
- Devido ao momento expiatório da Terra. Quem sofre, adoece psiquicamente, os sonhos fenecem, as emoções enregelam. Somente a esperança é capaz de acender na alma o desejo de galgar os degraus da caminhada humanizadora, ante os golpes cruéis da dor. A transposição de ciclos expiatórios e provacionais para a regeneração significa, evolutivamente, uma “cisão de reinos”. É a saga do homem, assumindo seu estágio humanizador, deixando para trás as velhas bagagens enfermiças do instinto e do egoísmo. Impossível fazer semelhante mudança sem sofrimento e desolação. O raciocínio é apenas uma faceta da conquista humana. Enquanto o homem não se educar para amar, não poderá ser considerado um “ser humano”. A esse respeito, Allan Kardec recebeu lição incomparável das hostes celestes nestas palavras:
“Todavia, não tereis verdadeiramente o direito de dizer-vos civilizados, senão quando de vossa sociedade houverdes banido os vícios que a desonram e quando viverdes como irmãos, praticando a caridade cristã. Até então, sereis apenas povos esclarecidos, que hão percorrido a primeira fase da civilização. ” (1)
- O senhor estaria dizendo que nós ainda não nos humanizamos? – rebateu o mesmo participante.
- Na ótica da evolução universal, humanizar significa aprender a viver integrado à obra do Criador. E, para bilhões de almas, neste momento de dor das sociedades terrestres, viver é o mesmo que carregar um pesado fardo; o fardo de ter consciência de si mesmo. Se viver já é uma tormenta para muitos, imagine o quanto teremos que avançar a fim de nos integrarmos com às Leis Naturais.
- Do jeito que o senhor coloca, parece que a Terra está mais atrasada do que somos capazes de imaginar. Estaríamos, porventura, no reino animal?
- Quase isso, meu irmão! Somente perdendo o corpo para aquilatar com precisão a natureza dos problemas terrenos. Essa a razão de nós, os desencarnados, trazermos o coração repleto de gratidão em situações em que o homem encarnado só enxerga desgraça.
- Professor – pediu a palavra um seareiro de Londrina – por qual motivo os seguidores do Cristo são as almas mais aliciadas pelas furnas? Não deveria ser o contrário, isto é, serem os mais protegidos face o esforço e devoção nas fileiras da caridade?
- São os mais aliciados, porque, com raras exceções, desencarnam com culpas inconfessáveis. Os espíritas reencarnados carecem retificar, em muito, os seus conceitos sobre o que seja ser cristão. Uma cultura perigosa se insufla nas comunidades doutrinárias, cujo cerne é a idéia falsa do que seja ser espírita. Quase sempre, esse conceito exige espetáculos de grandeza moral inacessíveis à maioria esmagadora dos discípulos da doutrina. Para atender a essa expectativa estimulada através da cultura espírita, homens e mulheres adotam condutas pudicas e artificiais, quando o que mais necessitamos no momento é sinceridade no intuito de mostrarmo-nos como somos e humildade para iniciar o serviço autêntico de renovação. O homem engana a si mesmo, e depois a morte o devolve à sua consciência. É assim que, ao sair do corpo com o chumbo da culpa, é puxado para baixo e naufraga em tormentas que constituem plugs automáticos com as sociedades inferiores.
- E o amparo, onde fica?
- Essa é a pergunta mais comum que ouvimos por aqui. Sem nenhum desrespeito à sua formulação, ela traduz a infantilidade da visão de quantos desconhecem a extensão dos serviços da Divina Providência. A bondade de Mais Alto jamais cessa em estender benesses até mesmo para os escravos da perversidade, quanto mais aos devotos do bem. Entretanto, muita ilusão permeia a visão de nossos correligionários espíritas a esse respeito. Imaginam-se isentos de lutas após a morre, tão somente em função das extensas folhas de serviços prestados nas tarefas. Até mesmo o Amor Celeste, para ser bem recebido, solicita educação interior, pois, do contrário, pode ser interferência infeliz nas necessidades de aprendizado de muitas almas. Já resgatamos companheiros espíritas em lamentáveis estados de loucura fora do corpo, cuidamos de suas carências imediatas e, quando foram convocados a servir e melhorar, fugiram desatinados em direção aos Portais de Saída, no rumo de suas plantações. Tinham o Espiritismo no cérebro e traziam o coração na retaguarda. Para nós, que nos acostumamos ao auto¬conhecimento fora dos cinco sentidos, o conceito de ser espírita passa por esse parâmetro: o coração que pulsa ininterruptamente em busca da luz. Basta isso para que o amparo, em qualquer instância, possa ser eficaz sem ser conivente.
- Como definir isso, professor: “coração que pulsa ininterruptamente em busca da luz”? – insistiu o mesmo confrade com curiosidade.
São aqueles que jamais desistem de melhorar. – Só isto?!
- Meu irmão, para almas que fazem “cisão de reino” como nós, isso é tudo desde que seja sincero; vindo do fundo da alma. O desejo de melhora talvez seja a qualidade mais evidente em nosso estágio evolutivo, por traduzir que já cansamos do mal,- da estagnação. Tudo ao mais virá daí, ou seja, o progresso, o desligamento dos vícios, enfim a vitória interior. Enquanto isso, nossos irmãos na seara, quase sempre tomados de escassa tolerância e compaixão, esperam uns dos outros mais do que podem oferecer, criando desânimo e puritanismo totalmente desnecessários. O desejo de melhora é o efeito de um longo trajeto de amadurecimento do Espírito. Quem o possui sem artificialismo vai ao Pai. Ninguém o improvisa de uma para outra hora.
A reunião continuava como inestimável ocasião de esclarecimento e introspecção. Levantou-se um cavalheiro perto da imagem projetada e apontou, indagando:
- Observei que estes corredores abaixo do nível do solo estão mais pardacentos. Qual a razão?
- Como disse anteriormente, são elos com dimensões inferiores. Lá ficam dependências para casos mais graves, inclusive celas. Existem algumas histórias de resgate, nas quais seria imprudente colocar alguns pacientes na intimidade dos pavilhões. Nos chamados Portais de Acesso – e manejou novamente a imagem projetada que passou a mostrar com detalhes a narrativa – como podem ver, temos estes cômodos, logo na entrada, na divisa entre as regiões inferiores e os limites do Hospital. Sob guarda intensa e cuidados muitos especiais, são alojamentos apropriados para avaliar a real possibilidade da internação, ou aguardarem a amenização de quadros enfermiços para posterior transferência a outras organizações de nosso plano.
- Ocorrem casos de desistência? Não quererem ser internados?
- Nem sempre é desistência, mas imantação. Leis que governam acima das nossas possibilidades de ação. Leis que determinam a posição de cada um de nós na Obra da Criação. São histórias entristecedoras, entretanto, mesmo regadas pela Misericórdia não conhecemos nenhuma que escapasse da lei que determina: a cada um segundo suas obras. (2)
- Quando o senhor mostrou os portais disse que lá são tratados pacientes circunstanciais. Quem são eles?
- São os desvalidos que pedem socorro.
Desafortunados que se enroscaram em armadilhas ou brigas. Corações tombados pelo vício. Mães aflitas. Filhos desnorteados. Pais preocupados. Criaturas feridas, acidentadas ou maltratadas. Enfim, não há como descrever tanta penúria e sofreguidão nas zonas de interação com as regiões inferiores. Nos portais, temos verdadeiro centro de caridade pública muito similar ao pronto-socorro na Terra. Casos graves chegam por ali. Grande parcela é temporária. Alguns vêm em busca de um naco de pão, sentem fome, frio e loucura. Machucados, uns; inconscientes, outros. Sangue, dor e carência se misturam aos pedidos de ajuda para outros que estão chafurdados em ciladas, presos em magotes no caminho. Ali recebemos todo tipo de tormenta humana. Raríssimos, porém, obterão todos os cuidados que suplicam, face às suas intenções voltadas para baixo. Não anseiam permanecer no Hospital, mas gostariam que fôssemos onde estagiam. Assim, como entre os encarnados, existem, por aqui, muito imediatismo e interesse particular.
- Não existem defesas nessa parte?
- É uma faixa espiritual de inúmeras lutas que, por agora, abdicarei de expô-las. Há quem imagine os benfeitores do além, dirigindo um Hospital como este atrás de uma escrivaninha, ditando normas e pareceres. É neste local singular do Hospital que encontramos nosso diretor, Eurípedes Barsanulfo, na maioria de suas horas de trabalho. Quando o amor do venerando apostolo não é absorvido pelos atormentadores e atormentados, entram em campo as defesas da justiça, que determinam ações corajosas na extinção do mal que grassa. A bondade não exclui a ordem. Nossa casa conta com excelentes estrategistas nesse sentido para que a maldade calculada não invalide os planos socorristas do amor.
- Posso perguntar? – pediu um cooperador do Triangulo Mineiro.
- Temos ainda alguns minutos para mais duas perguntas.
- Já ouvi falar desse Hospital através de Chico Xavier em 1980, mas não imaginava a grandeza desta obra. Gostaria de saber quantos internos tem o hospital e se todos são espíritas.
- Cada braço (ou pavilhão) alberga aproximadamente dois mil leitos, totalizando um fluxo de dez mil internações rotativas nos cinco pavilhões. Além disso, temos os casos do subsolo que chegam, em tempos de lotação, a quase cinco mil histórias diferentes, que nem sempre resultam em internações. O Hospital Esperança, após setenta anos de atividade tornou-se uma referência mundial de posto avançado de socorro na erraticidade. As comunidades de todo o orbe, orientem-se ou não pela mensagem de Jesus, contam com seus ofícios. Hoje, temos milhares de leitos indiretos distribuídos em enfermarias e núcleos improvisados, junto a inúmeras entidades de amor na Terra, sob orientação e amparo desta casa. Muitos centros espíritas fazem parte deste conglomerado de auxílio e recuperação, conquanto tenhamos, nesse campo, variadas organizações cristãs de outras designações em atividade exemplar. Cada pavilhão atende a necessidades específicas e procuramos agrupar os pacientes por afinidade de pensamentos e necessidades. Isso nos facilita, a princípio, os atendimentos. Há pavilhões de evangélicos, católicos e assim por diante. Assim como temos este pavilhão Judas Iscariotes, designado a líderes cristãos, especialmente espíritas, temos setores próprios para os umbandistas e mais algumas denominações cristãs.
- Por que vim parar aqui? – perguntou por fim Selena à queima-roupa, dando a entender que divagava em profundas reflexões de ordem pessoal. Pela minha idade, quando no corpo, o Hospital nem tinha sido fundado ou estava em seus primórdios. Portanto, ficarei sabendo de onde vim realmente? São programadas reencarnações aqui no Hospital?
- Embora não seja um serviço de prioridade do Hospital, cerca de mil e quinhentas reencarnações já foram projetadas e executadas integralmente em setor apropriado; isso sem contar os milhares de casos nos quais houve a participação no encaminhamento para outros núcleos especializados em renascimento carnal. Todos vocês, que já tiveram prévia seleção por parte de técnicos para conhecerem as informações pertinentes às suas necessidade atuais, em tempo oportuno, terão acesso livre às suas fichas reencarnatórias. Em nossa biblioteca, existe uma repartição destinada a essa finalidade. Será nesse local, Selena, que obterá muitas respostas para velhas perguntas feitas no silêncio da alma. O Hospital Esperança, pode-se afirmar, é um grande pronto-socorro e um centro preparatório para casos específicos de seguidores da mensagem Cristã.
- Posso fazer uma última pergunta, professor? ¬indagou Marcondes.
- Que seja a última para cumprirmos nosso horário.
- Que razões haveria para um pavilhão somente de líderes cristãos como este no qual estamos incursos?
- O pavilhão dos dirigentes é uma das tarefas mais exigentes de toda essa obra de amor. A necessidade dos líderes cristãos exigiu maior quota de serviços especializados, estabelecendo atividades singulares. Somos os intérpretes da mensagem cristã, quem mais a entende pelo raciocínio, ao tempo em que somos os que a menos sentimos no pulsar das atitudes. Essa condição determinou nosologias muito diferenciadas para quantos se inspiram nas palavras do Cristo. De fato, nossa história reflete um trajeto particular, de um grupo espiritual com caracteres psíquicos pertencentes a certas classes de exilados de capela. Assunto complexo que, oportunamente, será motivo de estudos para cada um, conforme suas aspirações. A rigor, nós, os líderes cristãos de qualquer denominação religiosa, somos espíritos com complexas necessidades no campo do sentimento. Amamos a mensagem cristã, ela nos toca profundamente, todavia somos ainda dominados por velhas artimanhas da vida mental, cujos registros se perdem na noite dos tempos …
O professor interrompeu a atividade pontualmente no horário previsto. Orou em agradecimento e saiu ligeiramente para outros afazeres, deixando em todos os presentes o desejo incontido de indagar e conhecer outras nuances. Na condição de educador, ele sabia que essa curiosidade seria extremamente benfazeja aos dias vindouros daquele grupo de aprendizes. O resultado pôde ser percebido imediatamente, pois todos permaneceram no recinto trocando impressões entre si sobre o que cada um sabia além daquilo que fora exposto.
Fim.
FONTE: páginas 177 á 189 do LIVRO LÍRIOS DE ESPERANÇA
Wanderley S. de Oliveira pelo espírito ERMANCE DUFAUX
Ed. Dufaux – www.ermence.com.br