1. E, quando orares, não sejas como os hipócritas, pois se comprazem em orar em pé nas sinagogas, e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. Mas tu, quando orares, entra no teu aposento e fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em oculto. E teu Pai, que te vê secretamente, te recompensará. E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios, que pensam que, por muito falarem, serão ouvidos. Não te assemelhes a eles, porque o teu Pai sabe o que te é necessário, antes de lhe pedires. (Mateus, capítulo 6, versículos 5 a 8.).
2. E, quando estiverdes orando, perdoai, se tiverdes alguma coisa contra alguém, para que o vosso Pai, que está nos céus, vos perdoe as vossas ofensas. Mas, se vós não perdoardes, também o vosso Pai não vos perdoará as vossas ofensas. (Marcos, capítulo 11, versículos 25 e 26.).
3. E disse Jesus também esta parábola a uns que confiavam em si mesmos, crendo que eram justos, e desprezavam os outros: Dois homens subiram ao templo para orar, um fariseu e o outro um publicano. O fariseu, estando de pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou, porque não sou como os demais homens ladrões, injustos, adúlteros, nem sou como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e dou os dízimos de tudo quanto possuo. – O publicano, porém, estando em pé, de longe nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador! – Digo-vos que o publicano desceu justificado para sua casa e não o fariseu, porque qualquer um que a si se exalta será humilhado e qualquer que a si mesmo se humilha será exaltado. (Lucas, capítulo 18, versículos 9 a 14.).
4. As condições da prece são claramente definidas por Jesus.
Quando você orar – diz Jesus –, não se coloque onde todos o vejam, mas ore no silêncio de seu coração. Não finja orar muito, porque não será pela quantidade de palavras que você se fará ouvido. Você será ouvido pela sua sinceridade. Antes de orar, se você tiver alguma coisa contra alguém, perdoe-lhe, porque a prece não pode ser agradável a Deus, se ela não nascer de um coração despojado de todo sentimento contrário à caridade. Ore, enfim, com a humildade do publicano e não com o orgulho do fariseu. Analise os seus próprios defeitos, sem querer destacar as suas qualidades e, se você se comparar com alguma pessoa, procure o que existe de mau em você mesmo. (Veja o capítulo X, itens 7 e 8, nesta mesma obra.).
EFICÁCIA DA PRECE
5. Por isso vos digo que tudo o que pedirdes, orando, crede que o recebereis, e tê-lo-eis. (Marcos, capítulo 11, versículo 24.).
6. Há pessoas que contestam a eficácia da prece. Para isso, elas se fundamentam no princípio de que Deus, conhecendo nossas necessidades, faz inútil que as exponhamos. Acrescentam, ainda, que tudo estando regido no Universo por leis eternas, os nossos pedidos não podem mudar os desígnios de Deus. Sem dúvida alguma que há leis naturais e imutáveis que Deus não pode mudar segundo os caprichos de cada um. Mas, daí a julgar que todas as circunstâncias da vida estão sujeitas a uma fatalidade, a distância é grande. Se fosse dessa forma, o homem seria um simples instrumento passivo, sem livre-arbítrio e sem direito a ter iniciativas diante de acontecimentos favoráveis ou desfavoráveis. Neste caso, ao homem nada mais caberia do que curvar a cabeça diante dos acontecimentos, sem procurar evitá-los. Não deveria procurar desviar-se dos perigos.
Deus não deu ao homem o entendimento e a inteligência, para que não se servisse dessas qualidades. Deus não lhe deu a vontade para o não querer e nem a atividade para cair na inanição.
O homem, estando livre para agir, tomará resoluções boas ou más. E seus atos têm, para ele mesmo e para as outras pessoas, as conseqüências boas ou más do que ele faz ou deixa de fazer. Por decorrência de sua iniciativa, há acontecimentos que escapam forçosamente da fatalidade. Essa ocorrência, no entanto, não quebra a harmonia das leis universais, da mesma maneira que fazer avançar ou retardar os ponteiros de um relógio não anula a lei do movimento sobre o qual foi criado o seu mecanismo.
Deus pode, portanto, concordar com certos pedidos sem alterar a imutabilidade das leis que regem o conjunto da vida. Mas o atendimento dependerá sempre dos fundamentos da Justiça Divina.
7. Seria, portanto, falta de juízo concluir desta máxima: “Aquilo que pedirdes pela prece, vos será concedido”, que basta pedir para receber. E injusto é acusar a Providência Divina se não são concedidos todos os pedidos que se fazem, porque ela sabe, melhor do que nós, o que é necessário para o nosso bem espiritual.
A Providência Divina procede como um pai sábio que nega a seus filhos aquilo que seja contrário a seus verdadeiros interesses.
O homem, geralmente, só vê o momento presente.
Se o sofrimento, porém, é útil para a criatura, tendo em vista a sua felicidade futura, Deus o deixará sofrer, assim como faz um cirurgião que deixa um doente sofrer com uma operação que deve trazer-lhe a cura.
O que Deus concederá, se o homem pedir com confiança é a coragem, a paciência e a resignação. Também lhe concederá os meios de ele mesmo sair das dificuldades, com a ajuda de ideias que fará que os bons Espíritos lhe sugiram intuitivamente, deixando-lhe o mérito de colocá-las em prática.
A Providência Divina ampara aqueles que se ajudam a si mesmos, segundo esta máxima: “Ajuda-te e o céu te ajudará”. A Providência Divina não poderá, portanto, ajudar aqueles que tudo esperam de um socorro alheio, sem usarem as suas próprias faculdades.
Mas, na maioria das vezes, preferimos ser atendidos por um milagre, sem empregarmos o mínimo esforço para fazermos que as leis divinas funcionem em nosso próprio benefício. (Veja o capítulo XXV, item 1 e seguintes, desta mesma obra.).
8. Tomemos um exemplo, para esclarecer esses princípios.
Um homem se perdeu num deserto. Ele sofre uma terrível sede. Sente-se desfalecer e se deixa cair na areia escaldante.
Ele pede a Deus que o socorra e espera. Porém, nenhum anjo do céu lhe vem dar água para beber. No entanto, um bom Espírito lhe sugere a idéia de levantar-se tomar um dos rumos que tem diante de si. Então, por um movimento instintivo, reúne todas as suas forças, soergue-se e avança aparentemente sem rumo certo.
Alcançando uma elevação, descobre ao longe um regato. Ao vê-lo ganha coragem. Se ele tem fé, exclamará: “Obrigado, meu Deus, pela idéia que me inspiraste!”. Se, porém, ele não tiver fé, dirá para si mesmo: “Que boa idéia eu tive! Que sorte a minha de tomar o rumo à direita, ao invés da esquerda! O acaso, algumas vezes, nos socorre muito bem! Quanto me felicito pela minha coragem e por não me haver deixado abater”.
Mas – dirão alguns –, por que o bom Espírito não lhe disse claramente: “Siga nessa direção e, no fim, encontrarás o de que necessitas”? Por que não se materializou para guiá-lo e sustentá-lo no seu abatimento? Dessa maneira – concluirão alguns – ele ficaria convencido do socorro da Providência Divina!
Reflitamos com mais profundidade!
Agindo através da inspiração, a Providência Divina estava a ensinar-lhe que é necessário ajudar a si mesmo para superar as adversidades e a fazer uso de suas próprias forças. Além disso, ele, pela incerteza de receber o socorro pedido, submete-se à prova de confiança e de submissão aos desígnios divinos. Esse homem está na situação da criança que caiu e que, vendo aproximar-se alguma pessoa, põe-se a gritar e fica à espera de que a venham levantar e, se não vê pessoa alguma por perto, faz esforços por si mesma e se levanta sozinha.
Se o Espírito de Luz que acompanhou Tobias lhe tivesse dito: “Fui enviado por Deus para te guiar na tua viagem e te preservar de todo perigo”, Tobias não teria nenhum mérito. Confiando-se ao seu companheiro, não necessitaria nem mesmo pensar. Por isso é que o Espírito de Luz só se deu a conhecer no regresso.
AÇÃO DA PRECE.
TRANSMISSÃO DO PENSAMENTO
9. A prece é uma invocação. Através dela o homem se põe em comunhão de pensamento com o ser a quem se dirige. Ela pode ter por finalidade fazer um pedido, um agradecimento ou uma homenagem. A criatura pode orar por si mesma ou por outras pessoas, pelos que estão encarnados e pelos desencarnados.
As orações endereçadas a Deus são ouvidas pelos Espíritos encarregados da execução da vontade do Pai Celestial. Aquelas que são endereçadas aos bons Espíritos são transferidas para a Justiça Divina. Quando oramos para outros seres e não para Deus, os seres a quem nos dirigimos servem de intermediários, de intercessores, porque nada pode ser feito sem a vontade de Deus.
10. O Espiritismo nos faz compreender a ação da prece, ao revelar o mecanismo da transmissão do pensamento, quer quando o ser a quem oramos venha a nosso socorro, quer quando apenas o nosso pensamento se eleva a esse ser.
Para se compreender o que ocorre nessas situações, é necessário imaginar todos os seres encarnados e desencarnados mergulhados no fluido universal que toma todo o espaço, assim como na Terra estamos todos mergulhados na atmosfera. Esse fluido universal recebe um estímulo da vontade. Esse fluido é o condutor do pensamento, assim como o ar é condutor do som. Há, porém, uma variante, uma vez que as vibrações do ar são limitadas, enquanto que as vibrações do fluido universal se propagam ao infinito. Quando, portanto, o pensamento é dirigido a qualquer ser, na Terra ou no espaço, seja de encarnado para desencarnado, seja de desencarnado para encarnado, uma onda fluídica se irradia de um para outro, transmitindo o pensamento, como o ar transmite o som.
A energia dessa onda fluídica está na intensidade do pensamento e da vontade de quem pensa. É assim que a prece é ouvida pelos Espíritos, qualquer seja o lugar em que se encontrem. É assim, também, que os Espíritos se comunicam entre si e que nos transmitem as suas inspirações. E pelo mesmo mecanismo, é que se estabelecem as relações de pensamentos entre encarnados que estão distantes entre si.
Esta explicação se dirige, sobretudo, aos que não compreendem a utilidade da prece exclusivamente mística. Não temos por finalidade materializar a prece, mas tornar os seus efeitos compreensíveis, ao evidenciar que ela pode exercer uma ação direta e positiva. Nem por isso estará menos subordinada aos desígnios Divinos, juiz supremo de todas as coisas, e que é o único que pode tornar a ação da prece eficaz.
11. Pela prece, o homem atrai o amparo dos bons Espíritos que o vêm sustentar nos seus bons propósitos e lhe inspirar bons pensamentos. Ele ganha, assim, a força moral necessária para vencer as dificuldades e retornar ao caminho reto, se dele se afastou.
Pela prece, o homem pode afastar de si os males que atrairia por suas próprias faltas. Um homem, por exemplo, vê a sua saúde arruinada pelos excessos que praticou e arrasta, até o fim de seus dias, uma vida de sofrimentos. Terá ele o direito de queixar-se, se não obtiver a sua cura? Não, porque poderia ter encontrado na prece a força para resistir às tentações que o levaram ao excesso.
12. Divida em duas partes os males da vida: uma, com os males que o homem não pode evitar e outra com as atribulações que ele mesmo provoca por sua falta de cuidados e pelos seus excessos. (Veja capítulo V, item 4, nesta mesma obra.) Você verá que os males da segunda parte são muito mais numerosos que os males que o homem não pode evitar. Fica bastante evidente que o homem é o autor da maior parte de suas aflições e que ele as evitaria se agisse com sabedoria e prudência.
O estado deplorável do homem é a conseqüência do desrespeito às leis divinas. Se cumpríssemos rigorosamente essas leis, seríamos inteiramente felizes. Se não desejássemos além do limite do que é necessário para a satisfação de nossas necessidades, não teríamos as doenças que são provocadas pelos excessos de nossos desejos, nem sentiríamos as alterações que as doenças determinam em nossas vidas.
Se impuséssemos um limite à nossa ambição, não temeríamos a ruína. Se não quiséssemos subir mais alto do que podem as nossas forças, não temeríamos a queda. Se fôssemos humildes, não sofreríamos as decepções do orgulho abatido. Se praticássemos a lei da caridade, não seríamos maledicentes, nem invejosos, nem ciumentos e, assim, evitaríamos as discussões e os desentendimentos.
Se não fizéssemos nenhum mal a ninguém, não teríamos de temer as vinganças.
Os males da vida são conseqüência do desrespeito às leis divinas que governam as nossas vidas.
Admitamos que o homem nada pudesse fazer em relação aos males que não dependam de sua conduta atual. Admitamos, ainda, que todas as orações que faça, sejam inúteis para livrar-se desses males. Não seria muito desejável orar, para ficar liberado das conseqüências que decorrem de sua própria conduta? Neste caso, a ação da prece pode ser entendida facilmente. É que ela tem por efeito atrair a inspiração salutar dos bons Espíritos, quando lhe pedirmos a força para resistir às más inclinações, a fim de evitarmos de praticá-las por nos serem prejudiciais. Estaremos, então, pedindo não que afastem o mal de nós, mas para que eles nos afastem dos maus pensamentos que nos podem levar ao mal. Com isso, eles não embaraçam em nada os desígnios de Deus e nem alteram o curso das leis da Natureza, mas evitam que desrespeitemos essas leis, orientando o nosso livre-arbítrio.
Os bons Espíritos, porém, agem sem que os percebamos, duma maneira oculta, para não interferirem em nossa vontade. O homem se encontra, então, na mesma posição daquele que pede bons conselhos e os coloca em prática, mas que está sempre livre de segui-los ou não. Deus quer que seja assim, para que cada um seja responsável por seus atos e tenha o mérito de escolha entre o bem e o mal. É isso que o homem poderá estar certo de que sempre receberá, se ele o pedir com fervor, e ao que se pode, sobretudo, aplicar estas palavras: “Pedi e obtereis”.
A eficácia da prece, mesmo reduzida a essas proporções, não daria para o homem um resultado benéfico? Estava reservado ao Espiritismo demonstrar a ação da prece, pela revelação das relações que existem entre o mundo corporal e o mundo espiritual. Mas não se limitam somente a isso os seus efeitos.
A prece é recomendada por todos os Espíritos.
Renunciar à prece é desconhecer a bondade de Deus. É renunciar para si mesmo à assistência da Providência Divina. E não orar pelas outras pessoas é renunciar ao bem que se lhes pode fazer.
13. Ao atender ao pedido que lhe é dirigido, Deus tem normalmente em vista recompensar a intenção, o devotamento e a fé daquele que ora. Eis porque a prece do homem de bem tem mais mérito aos olhos de Deus, e sempre é mais eficaz, porque o homem vicioso e mau não pode orar com o fervor e a confiança que nascem do sentimento da verdadeira piedade.
Do coração do homem egoísta, daquele que ora só com os lábios, não poderiam sair senão palavras. Não saem desse coração as radiações da caridade que dinamizam a prece em toda a sua intensidade.
Compreende-se isso tão bem que, por um movimento intuitivo, os que querem que outras pessoas orem por eles, procuram, de preferência, as pessoas que tenham uma conduta que seja mais agradável a Deus, porque as preces deles serão melhor ouvidas.
14. Se a prece exerce uma espécie de ação magnética, poderíamos supor que o seu efeito estivesse condicionado à qualidade dos fluidos emanados do homem que ora. Entretanto, não é assim.
Desde que os Espíritos exercem essa influência fluídica sobre os homens, eles podem suprir, quando for necessário, a insuficiência daquele que ora, seja por substituírem diretamente o que ora, seja por dar-lhe momentaneamente uma força excepcional, quando julgarem que a pessoa que ora é digna desse benefício ou quando julgam que isso lhe possa ser útil.
O homem que não se considera bom para exercer uma influência benéfica, não deve renunciar a orar pelas outras pessoas, por alimentar-se com a idéia de que não é digno de ser ouvido em seus pedidos. A própria consciência que tem de sua inferioridade é uma demonstração de humildade sempre agradável a Deus, que levará em consideração a intenção caridosa que o anima. O seu fervor e a sua confiança em Deus são os seus primeiros passos para o seu retorno ao bem, retorno esse que os bons Espíritos se sentem felizes de incentivar.
A prece que não se libera do homem é aquela dos orgulhosos, que só têm fé no seu poder e nas suas qualidades pessoais e que julgam poder substituir os desígnios do Eterno.
15. O poder da prece está no pensamento. Esse poder não depende nem das palavras, nem do lugar e nem do momento em que a prece é feita. Pode-se, portanto, orar em qualquer lugar, a qualquer hora, sozinho ou junto com outras pessoas. A influência do lugar e do momento em que se ora é exclusivamente em relação ao que possa facilitar o recolhimento interior daquele que faz a prece. A prece em conjunto com outras pessoas tem uma ação mais poderosa somente quando todos aqueles que oram estão unidos de coração a um mesmo pensamento e a uma mesma finalidade nobre, porque, então, é como se muitos clamassem juntos e numa só súplica.
Mas, que adiantaria se as pessoas estivessem reunidas em grande número, e cada uma delas agisse isoladamente e por interesse só pessoal? Uma centena de pessoas reunidas pode orar como egoístas, enquanto que duas ou três, unidas numa mesma aspiração, orarão como verdadeiros irmãos em Deus, e a sua prece terá mais força do que a prece daqueles cem egoístas. (Ver capítulo XVIII, itens 4 e 5, desta mesma obra.).
PRECES COMPREENSÍVEIS
16. Se eu, portanto, não entender o que significam as palavras, serei como um bárbaro para aquele a quem falo e o que fala sê-lo-á para mim do mesmo modo. Porque se eu orar numa língua estrangeira, verdade é que o meu espírito ora, mas o meu entendimento fica sem fruto. Mas se louvares com o espírito, o que ocupa o lugar do simples povo dirá Assim Seja, sobre a sua bênção, visto não entender ele o que dizes? Verdade é que tu dás bens as graças, mas o outro não é edificado. (Paulo de Tarso, I Coríntios, capítulo 14, versículos 11, 14, 16 e 17.).
17. A prece só tem valor pelo pensamento de onde ela nasce.
Ora, é impossível fazer nascer uma idéia qualquer daquilo que não se compreende, pois o que não se compreende, não pode sensibilizar o coração. Para a grande maioria das pessoas, as preces com palavras desconhecidas não passam de uma mistura de coisas que não lhes dizem nada para o espírito. Para que a prece toque o coração, é necessário que cada palavra desperte uma idéia. Mas se não compreendermos o que quer dizer cada palavra, a palavra não pode despertar em nós nenhuma idéia. Poderemos repetir as palavras de uma oração, como se fosse uma simples maneira de pedir e como se a qualidade do pedido estivesse apenas no menor ou maior número de vezes que o repitamos.
Muitos são os que oram por mero dever. Outros, apenas para seguir os costumes. Por isso eles se julgam desobrigados dessa obrigação de orar, já que recitaram uma prece um determinado número de vezes e numa determinada ordem. Deus lê o íntimo dos corações.
Ele nos lê os pensamentos e examina a nossa sinceridade. Julgar que Deus seja mais sensível à nossa forma de orar do que à essência íntima da fé, seria desconsiderar a Justiça Divina. (Veja capítulo XVIII, item 2, nesta mesma obra.).
A PRECE PELOS DESENCARNADOS E PELOS ESPÍRITOS EM SOFRIMENTO
18. A prece é solicitada pelos Espíritos que sofrem após a desencarnação. Toda prece lhes é um alívio, porque ao verem que são lembrados, eles se sentem menos infelizes. A prece tem, para eles, uma ação mais direta: dá-lhes novo ânimo, estimulando-lhes o desejo de se elevarem pelo arrependimento de suas faltas e pelo desejo de repará-las, e pode desviá-los da idéia do mal.
É nesse sentido que a prece pode não somente aliviar, mas também abrandar os seus sofrimentos. (Veja em O Céu e o Inferno,a parte: “Exemplos”.).
19. Algumas pessoas não admitem as preces pelos desencarnados, porque, segundo a crença dessas pessoas, não há para a alma mais que duas alternativas: ser salva ou ser condenada às penas eternas! E, para essas pessoas, qualquer que seja a alternativa, a prece será inútil.
Sem discutir o valor dessa crença, admitamos, por alguns instantes, que as penas eternas fossem reais e sem apelação, e que as nossas preces fossem incapazes de interrompê-las. Perguntamos se, nessa situação, é lógico, é caridoso, é cristão recusar orar pelos condenados? Essas preces, mesmo que incapazes de libertá-los, não seriam para eles um sinal de piedade, que poderia abrandar seus sofrimentos?
Na Terra, quando um homem é condenado à prisão perpétua, mesmo que não haja nenhuma esperança de obter-se a graça da libertação para ele, é proibido a uma pessoa caridosa dar-lhe alguma consolação para que ele carregue a cruz de seus enganos mais aliviado?
Quando alguém contrai um mal incurável, se não houver para esse doente alguma esperança de cura, deve-se abandoná-lo sem nenhum alívio?
Lembrem-se de que, entre os condenados, pode haver uma pessoa que lhes foi cara. Pode haver um amigo, talvez um pai, uma mãe ou um filho. E só porque, segundo vocês que aceitam as penas eternas, essa pessoa não pode esperar o perdão, vocês poderiam recusar-lhe um copo d’água para mitigar-lhe a sede? Um bálsamo que lhe seque as chagas? Vocês não fariam por esse ser amado, o que fariam por um prisioneiro? Não lhe dariam uma prova de amor, uma consolação? Não! Recusar-se a ampará-la não seria de um cristão!
Uma crença que endurece o coração, não pode ser a mesma que se fundamenta num Deus que coloca em primeiro lugar os deveres do amor ao próximo! A não-eternidade das penas não implica a negação de uma dolorosa conseqüência temporária para as transgressões das leis divinas. A Justiça Divina não confunde o bem com o mal. Negar, neste caso, a eficácia da prece seria negar a eficácia da consolação, do levantar do ânimo e dos bons conselhos. Seria negar mesmo a energia que haurimos da assistência moral dos que nos querem bem.
20. Outros não admitem a prece, fundando-se num motivo que, com aparência de verdade, induz ao erro: a imutabilidade dos desígnios divinos. Deus – dizem esses outros – não pode mudar as suas decisões a pedido de suas criaturas. Se não fosse assim, nada seria estável no mundo, alegam eles. E o homem, portanto, nada tem de pedir a Deus e lhe cabe apenas submeter-se às leis divinas e adorar o Senhor.
Há nessa idéia uma falsa colocação do princípio da imutabilidade da lei divina, ou melhor, há falta de conhecimento da lei, no que se refere à penalidade futura. Essa lei é revelada pelos Espíritos do Senhor, a partir do momento em que o homem esteja amadurecido espiritualmente para compreender o que, na fé religiosa, é conforme ou contrário aos atributos divinos.
Segundo o dogma da eternidade absoluta das penas, não são considerados a favor do culpado nem os seus remorsos e nem os seus arrependimentos! Para o que errou, qualquer desejo de melhorar é inútil. Ele está condenado a permanecer no mal eternamente. Se ele estiver condenado por um prazo determinado, a pena se extinguirá no final desse tempo. Mas quem poderá afirmar que, no final de suas penas, ele melhorou seus sentimentos? Quem poderá dizer que, a exemplo de muitos condenados da Terra, ao saírem da prisão, ele não será tão mau quanto antes? No primeiro caso, seria manter na dor do castigo um homem que se voltou para o bem. E no segundo caso, seria agraciar aquele que continua se alimentando do desejo do mal.
A Justiça Divina é mais previdente. Sempre justa, equitativa e misericordiosa, ela não estabelece nenhum prazo de sofrimento para quem transgredi as leis divinas.
A Justiça Divina se resume assim:
21. O homem sempre sofre a conseqüência de seus erros. Não há uma só infração da lei de Deus, que não resulte em consequências amargas. A intensidade do sofrimento é proporcional à gravidade do erro moral. A duração do sofrimento, para qualquer erro moral, é não determinada. Ficará subordinada ao arrependimento daquele que errou e ao seu retorno ao campo do bem. O sofrimento, por isso, durará tanto quanto seja a sua obstinação no mal. Parecerá um sofrimento eterno, se a obstinação no mal parecer eterna. Será, porém, de curta duração se a criatura se arrepender logo. Assim que o sofredor rogue por misericórdia, ele será ouvido e receberá a luz da esperança. Mas, para que se liberte das dores morais, o simples remorso não basta: é necessário a reparação dos males causados para os outros. Eis porque o que errou moralmente se vê submetido a novas provações, nas quais ele pode, sempre por sua livre vontade, fazer o bem a quem fez o mal, reparando assim os seus erros.
O homem é, assim, constantemente o autor de seu próprio destino. Ele pode abreviar os seus sofrimentos ou prolongá-los por um tempo indefinido. A sua felicidade ou o seu sofrimento dependem da sua vontade de fazer o bem.
Tal é a lei! É lei imutável e reflete inteiramente a bondade e a justiça de Deus.
O Espírito culpado e infeliz, ajustado a essa lei magnânima, pode sempre salvar-se a si mesmo. A Justiça Divina lhe revela quais são as condições em que ele poderá fazer com que os seus sofrimentos se abrandem. O que lhe falta, no mais das vezes, é a vontade, a força, a coragem. Se, pelas nossas preces, lhe inspiramos essa vontade, se o ampararmos e o encorajarmos; se, pelos nossos conselhos, lhe dermos as luzes que lhe são necessárias, ao invés de solicitar a Deus que revogue a sua lei, nós nos tornaremos os instrumentos para a execução da lei do amor e da caridade, da qual a Justiça Divina nos torna seus participantes, para que doemos de nós mesmos uma prova da caridade. (Veja O Céu e o Inferno, 1ª parte, capítulos IV, VII e VIII.).
INSTRUÇÕES DOS ESPÍRITOS:
MODO DE ORAR
22. O primeiro dever de toda criatura humana, o primeiro ato que deve marcar para ela o retorno à vida ativa de cada novo dia, é o dever da prece. Quase todos vocês oram, mas quão poucos sabem orar! Que importam ao Senhor as palavras que vocês pronunciam, sem saber o que dizem, porque vocês já se habituaram a repeti-las assim como quem cumpre uma obrigação e que, como toda obrigação, é um peso incômodo! A prece do cristão, do Espírita, ou do adepto de qualquer outro culto religioso, deve ser feita no momento em que o Espírito retorna ao corpo físico. Ele deve elevar-se aos pés da Majestade Divina com humildade, com todas as forças de seu coração, com uma expressão de gratidão por todos os benefícios recebidos até aquela hora. Agradecer, também, pela noite transcorrida e durante a qual lhe foi permitido, embora disso não se lembre, retornar junto de seus amigos, de seus orientadores espirituais, para haurir, no contato com eles, mais energia e perseverança no campo do bem.
A prece deve elevar-se humilde aos pés do Senhor, reconhecendo as fraquezas morais de quem ora e rogando o amparo, a indulgência, a misericórdia divinas. A prece deve sair do interior do coração porque é a alma que deve elevar-se para o Criador. É você que deve se transfigurar como fez Jesus, orando, no Tabor, a fim de você chegar até Ele com a alma branca e radiosa de esperança e de amor.
A sua prece deve conter o pedido de graças de que você necessita realmente. Inútil, portanto, pedir ao Senhor que lhe abrevie as suas provas, que lhe dê alegrias e a riqueza. Peça-lhe, antes, que lhe conceda os bens mais preciosos da paciência, da resignação e da fé. Não diga, como fazem muitos: “Não vale a pena orar, porque Deus não me atende”.
O que você pede a Deus, na maioria das vezes? Já se lembrou de pedir-lhe o seu aprimoramento moral? Oh! Não! poucas vezes você pede pela sua evolução espiritual! O que mais você se lembra de pedir é o sucesso nos seus empreendimentos materiais e, depois, você reclama: “Deus não me olha! Se tivesse preocupação comigo, não existiriam tantas injustiças em minha vida”.
Insensato! Ingrato! Se você examinar o fundo de sua consciência, quase sempre ali você encontrará as causas dos males de que você se queixa. Peça, então, acima de todos os seus interesses materiais, o seu aprimoramento moral, e você verá que torrente de graças e de consolações se derramará sobre você. (Veja o capítulo V, item 4, desta mesma obra.).
Você deve orar incessantemente, sem que, para isso, você precise recolher-se num lugar especial e nem que você caia de joelhos pelas ruas. A prece diária é o cumprimento de seus deveres, mas sem excluir os outros deveres de sua vida diária, qualquer seja a natureza desses deveres. Não é, também, um ato de amor ao Senhor, quando você cumpre o dever de assistir seus irmãos numa necessidade qualquer, seja moral ou física? Não é um ato de gratidão ao Senhor elevar-lhe o pensamento quando uma felicidade chega a você, quando um acidente é evitado, quando mesmo uma simples contrariedade o toca e você diz: “Graças a Deus!”? Não é um gesto de arrependimento você se humilhar diante do Juiz Supremo, quando sente que caiu moralmente, mesmo que seja tão só por um desejo infeliz, e você lhe diz: “Desculpe-me, meu Deus, porque errei! (por orgulho, por egoísmo ou por faltar com a caridade)? Ajude-me a não errar mais e me dê, forças para corrigir meu erro”? Esses fatos independem de suas orações regulares da manhã, da noite e dos dias consagrados a Deus. Como você observa, a prece pode ser de todos os minutos de sua vida comum, sem necessidade de nenhuma interrupção de seus trabalhos diários. O pensamento oração, no curso de seu dia, santifica as suas atividades. Tenha certeza de que um só desses pensamentos, partido do coração, é mais ouvido pelo seu Pai Celestial do que as longas orações recitadas por hábito, quase sempre sem motivação espiritual, apenas porque a hora convencional chama para rezar, dizendo palavras que não saem do seu coração. (V. Momod, Bordéus, 1862.).
FELICIDADE DA PRECE
23. Venham, todos vocês que desejam crer. Os Espíritos Celestiais chegam e vêm lhes anunciar grandes coisas!
Deus, meus, filhos, abre as suas riquezas espirituais, para lhes distribuir todos os benefícios.
Homens incrédulos! Se vocês soubessem quanto a fé faz bem ao coração e quando induz a alma ao arrependimento de seus erros e induz, também, à oração! A prece! Ah! Como são tocantes as palavras que saem da boca e do coração no momento da prece!
A prece é o orvalho divino que abranda o grande fogo das paixões. Filha dileta da fé, a prece nos ajusta no caminho que conduz a Deus. No Recolhimento e na solidão da oração, vocês se encontram com Deus. Para vocês, então, já não há mais mistérios, uma vez que os mistérios lhes são revelados.
Apóstolos desta idéia, para vocês a verdadeira vida se abre. A sua alma se despoja do jugo das paixões e cresce para esses mundos infinitos e etéreos que os homens comuns desconhecem.
Avancem, avancem pelos caminhos da prece e vocês ouvirão as Vozes dos Céus. Que harmonia! Já não são os sons confusos e primários e estridentes da Terra. É a harmonia celestial. São as vozes suaves e doces dos que amam, mais leves que as brisas matinais que roçam as folhagens de seus arvoredos. Com que brandura, então, vocês caminharão!
A linguagem da Terra não poderia exprimir essa ventura, que os envolve por todos os poros, tão viva e repousante é a energia que recolhemos na fonte das orações! Doces vozes, inebriantes perfumes que a alma ouve e aspira quando, pela prece, ela se eleva a regiões celestiais, habitadas por Seres de Luz! Sem a mistura dos desejos carnais, todas as aspirações são divinas.
E vocês, também, orem como o Cristo. Orem carregando a sua cruz para o seu Calvário. Carreguem a sua cruz e vocês sentirão as doces emoções que banhavam a alma de Jesus, embora Ele carregasse o madeiro infamante. Ele, o Mestre, seguia para morrer na Terra, mas para da Cruz viver na vida celestial, na morada de seu Pai. (Agostinho, Paris, II 1861.)
PREÂMBULO
1. Os Espíritos têm sempre dito: “A forma da prece nada vale. O pensamento é tudo. Ore cada um segundo as suas convicções religiosas, desde que essa oração toque muito o coração. Um bom pensamento vale mais que mil palavras que não saiam do coração”.
Os Espíritos não estabelecem nenhuma fórmula exata para as preces. Quando sugerem alguma prece, eles têm por finalidade orientar as idéias de quem ora e, sobretudo, assim fazem para chamar a atenção sobre certos princípios da Doutrina Espírita. Fazem-no, pois, com a finalidade de ajudar as pessoas que sentem dificuldades para exprimir suas idéias, porque essas pessoas têm a sensação de não terem orado realmente, porque os seus pensamentos não estavam ordenados e claros.
A coleção de preces, que constam desta parte da obra, é uma escolha feita entre muitas daquelas preces que foram transmitidas pelos Espíritos em diferentes ocasiões. Os Espíritos podem ter transmitido outras, e com outras palavras, apropriadas a certas idéias ou a casos especiais. Mas pouco ou nada importa a forma das orações, se o pensamento fundamental é o mesmo.
A finalidade da prece é elevar a nossa alma a Deus. A diversidade das fórmulas não deve estabelecer nenhuma diferença entre aqueles que crêem em Deus e, menos ainda, nenhuma diferença entre os Espíritas, porque Deus aceita todas as preces que sejam sinceras.
Segue no livro Evangelho Segundo Espiritismo – Preces Diversas.
